Setembro 4, 2009

Igor says:

AHAHAHAHA, THAT’S ME! I’m the bitch who controls myself.

Menine, você não sabe. Bee, passei por altas barras aqui (Espanha). Até de saúde. Comprometeu feio. Ai, eu ontem, né, tentando ficar melhor, ouvindo meus pontos de umbanda, ficando um pouco mais zen… o que acontece? Quase uma passagem bíblica diante desses olhos. Eu do nada olhei pro msn, e vi um nick. Flávio declarando seu eterno e verdadeiro amor ao novo boy. Como se ele não tivesse conhecido o menino há dias. Ei, pó: POR FAVOR, NÉ? Miacabei de rir. Gatón, ele conseguiu matar o restinho da paixão que tava me acabando a partir do momento que ele comparou o que eu chamo por amor com ele (Flávio) ao que, pra ele, provavelmente foi um bom pós-foda. Ele matou toooooda a coisa que me deixava no lixo. Quero esse tipo de amor não, não mesmo. Sabe o que me fez rir mesmo? porque assim: oi? Eu te amo em finlandês? Oi? Ferramenta de idiomas do google? Mina rakastan sinua? Oi?

Ele fez tudo se tornar cômico. Ele todo comedido comigo, pensando em futuro, responsabilidades e contas a pagar, pagando pau feio por um garotinho conhecido há 70 e poucas horas. Pegay nojinho, qué mar não. Te amo em finlandês, adogay isso. Ele fez a magia se dissipar. Amigë, amor eterno, verdadeiro e incondicional de uma hora pra outra e em finlandês, comofas? Ajudaê, néan.

Os planos de agora? Gastar dinheiro, ficar linda e pintosa, me jogar nas boîtes. Ahahah, e fazer o mal pras bees. Só falta você aqui pra compartilhar disso comigo. Se ele pode jurar amor em filandês, a partir de ahora, yo solo quiero sufrir en español. É até mais decente, visto que eu moro aquí, né! E qual a relação que ele tem com a Finlândia? Espero que Papai Noel traga para ele um pouco mais de decência antes de falar de amor, né. E em finlandês. AHAHA. Que sea ahora un hombre de verdad, con una polla buenísima, jaja jaja.

Você tá namorando, comassim? Quem é o boy? Enseñame! E ele mora na Boa Vista? Gentche, que prátchico. Manda o orkutchi. Tcho ver. Oopz, orkut errado. Me mandasse um orkut de um hétero. Sério? Parece que é gay não. Eu achava que os últimos Ailton’s eram nascidos nos anos 60 ou já haviam sido todos exterminados. Nome de tiozão mermo. Mas ei! Tipo: acho tudo bom, essa coisa de você estar bem com ele e tal, mas acho ele feio pra você. Porra, Mad: tu és um negro bonito. Eu sei que existem a velha linha de: o importante é que vocês se gostem, sim, sim, claro. O importante é que a gente se goste, mas quando o boy é lala lala e tem uma pollaza, vale mais.

Ay, ay, ay, madre mia! Eu ando apaixonadíssimo pelos armênios. Migo, não sabes como são lindos. Conheci um, madre mia: que bofescândalo. Beeeeem branquinho, cabelo beeeeem preto, olhos beeeem azuizinhos e boca beeem vermelhinha, e tem um nome beeeem clichê: se chama Armen. Um assassinato à criatividade. Mas enfim. Ele trabalha aqui de segurança, mas na Armênia, era boxeador. Fiquei passado. Magina: la “mala” de él debe ser buenissima. Fiz uma linha Soraya. Uma vez ele fez uma recarga comigo, de celular, no meu trampo, e eu imprimi uma segunda via do recibo. Ai, mi Dios, salvei o numero dele. Só não sei ainda o que fazer. O que eu faço, amigoan? Já fui aconselhado que não é muito boa a linha que eu queria fazer, tipo mandar sms anônimas. Meio que admirador secreto. É assim que se chama, né? Só via essa breguices em novela da oito.

Eu sinto que ele é, sabe. Tipo aquela sensação do gaydar ligado, que só nós bees temos?

Meu gaydar liga com ele, mas sei lá. Eu acho que também pode ser a minha vontade de que ele seja. Ai, é muito mais fácil analisar se um boy é veado quando não sentimos nada por ele, oras. Agora assim, analisa comigo e depois fala:

1 – Suuuuper atencioso comigo; mais do que qualquer um. Às vezes, ele fala comigo e eu mordo devagarzinho os lábios, sabe, e ele não esboça nenhuma reação de quem não gostou; ¬¬’

2 – Diz que é louco pra conhecer o Brasil; pra ver as “morenas” sambando. ¬¬’

3 – Não tem namorada. Quer dizer, há vezes que ele diz que sim, e há vezes que ele se diz solteiro. Ele disse, algo do tipo: é meio que uma namorada, funciona como se fosse;   ¬¬’

4 – Mora só com a irmã; Acho isso tão gay;   ¬¬’

É tudo tão contundente, né. Foda e triste é que nunca mais o vi. Queria tanto que ele fosse gay. Mas, ao mesmo tempo, também não consigo investir. Já pensei em chamá-lo para o cinema. Mas cinema só é bom quando a gente já namora, né. A não ser que ele amasse Johnny Depp, ai eu chamava ele pra ver Sweeney Todd. Não sei o que fazer. Acho que eu vou ficar um pimentão se eu falar algo. Talvez algumas relações sejam feitas para ser apenas nos nossos ideais. Algo como platonismo.

Por que não pode existir amor instantâneo?

Olha, Bee. Vou indo nessa, ta. Depois a gente conversa mais. Manda notícias sempre. Besoymellama!

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p.s: Essa crônica foi derivada de uma conversa por msn com o meu melhor amigo Igorm, que mora na Espanha. O texto foi reeditado, modificado e adaptado por mim, em forma de monólogo, para que Igor, o meu personagem, se tornasse a única voz, a fonte principal. E, acreditem, vale a pena descobri-lo. Ele por si só também já é uma bela e fabulosa crônica. Besos, Igor.

Agosto 13, 2009

Perdas

A primeira sensação de perda que, racionalmente, senti na minha vida foi quando um menininho do colégio roubou o relógio de feira que minha mãe havia me dado. Cogitei que melhor seria deixá-lo dentro da bolsa, na carteira da sala, antes de ir ao recreio. Após isso, ponderei que o melhor mesmo era levar todas as minhas tralhas para onde quer que eu fosse. Mas mesmo assim continuei perdendo coisas.
Perdi um lenço, que era herança de família, minha calça de ano novo da 6ª série, uma carta super linda que minha avó me deu, além de dezenas de guarda-chuvas, que sempre esquecia nos lugares. Isso tudo até então eu perder meu primeiro amor. Depois de perdê-lo, não sei se por minha culpa ou por maldade do destino, perdi com ele a responsabilidade, o senso de certo e errado, e, enfim, a minha dignidade. Quando cheguei à lama, perdi ainda alguns dos meus amigos, que por não saberem o que se passava, foram repelidos pela minha tristesa. Por sorte ou por mérito, não perdi o caminho de volta. Recompus-me e me arrastei em direção ao início de tudo.
Quando perdemos o rumo, tem sempre alguém para nos dar informação. Quando nos perdemos numa cidade, há sempre um mapa à disposição do viajante. Mas quando perdemos com o coração? O que, exatamente, indica um caminho de volta? Será possível achar a saída sozinho?
Quando me apaixonei a primeira vez, perdi alguns amigos pelo fato de ter sido um cara. Quando me apaixonei a segunda, perdi a paciência pelo fato de ter sido um puta erro. E, agora, quando o fiz pela terceira vez, perdi a libido que sentia pelos outros e até um pouco da liberdade. Mas logo, e eu já imaginava, o fatídico dia chegou, e isso também me tirou. Acabei de perdê-lo. Não sei se por culpa minha, não sei se por ele. Ah, a boa notícia é que arranjei um emprego. Talvez agora eu compre aquela camisa da Calvin Klein, linda, que eu vi na semana passada.
De qualquer jeito, acho que o segredo, caso realmente exista algum, com certeza não deve estar em lamentar nostalgicamente aquilo que perdemos, mas, sim, em apostar em tudo o que ainda podemos vir a ganhar. E se você olhar para trás e não conseguir sorrir, pense ao menos em todas as coisas boas que você ainda tem.

Junho 25, 2009

A Pílula

Essa semana, confesso que fiquei  bastante chocado com um diálogo que tive, antes da novela, com a minha mãe. “Se a terapia não fizer com que você volte a ser hétero, não vou mais pagar” (sic), disse ela, de forma totalmente branda.

Antes de descorrer sobre o absurdo, fica uma nota. A sigla sic, tem origem do latim, e é muito usada nos textos jornalísticos para relatar com precisão o que a fonte falou. O sic só é utilizado, no entanto, quando há erro gramatical ou semântico na frase, e tal erro é tão importante para o entedimento da notícia, que o jornalista, ao invés de relevá-lo, transcreve-o exatamente como foi dito, utilizando-se do sic para que o leitor tenha a noção que, além de não ser um erro de redação de texto, tais palavras foram exatamente as proferidas pelo entrevistado, ou o mais perto disso possível. O sic, neste caso, não foi empregado para identificar um erro gramatical, ou seja, no campo da construção da frase, ou semântico, no campo de significação da mesma. Ele serviu para identificar um erro ideológico. O simples conceito de que minha mãe, a famigeradora da notícia, assim como milhares de pessoas brancas, classe média e heterossexuais (achou preconceituosos os adjetivos?, eu também achei o meu), realmente achava que eu poderia, como ela mesma disse, “voltar a ser hétero” (sic, novamente).

Não vamos nos deter sequer na discussão de: “nascer ou não nascer gay, eis a questão”. Isso deixo para uma próxima oportunidade. Mas ao fato de que em meio ao caos pós-moderno, pessoas ainda concebem que alguém pode heterossexualizar-se. Parêntesis: nos EUA, onde, aparentemente, tudo é possível, principalmente as coisas mais esdrúxulas e bizarras, existe um termo para denominar as pessoas que “deixaram de ser homossexuais” – o yestergay. Algo do tipo: era veado* ontem, hoje não sou mais. Não vale nem a pena comentar, pois acho isso tudo uma frescura, e até o próprio nome para designar o agora, então, hétero é a maior viadagem. Pra mim, isso tudo é só coisa de veado.

Mas voltando aos héteros, não puder evitar, exceto, chocar-me, apesar de cruas, não com as palavras, mas, sim, com o conceito que minha mãe deixou explícito. Claro, admito, que estou ciente de toda aquela baboseira de conflito de gerações, blá blá blá. Mas o fato é que essa é uma ideia, além egoísta, extremamente capitalista, de que uma terapia resolveria “o problema”. Dinheiro + tratamento =  cura. E ainda há a ideia implícita diante da insatisfação do serviço: tratamento + ausência de resultados = suspensão do pagamento. Sinceramente, não me surpreenderia muito se minha mãe se sentisse lesada o suficiente a ponto levar o caso pro Procon. “Deu defeito no serviço, quero meu dinheiro de volta, idenização, outro tratamento, outro remédio; uma cura”.

- Desculpe, minha senhora, mas, infelizmente, contra essa “doença” não existe profilaxia.

Não pude evitar, exceto imaginar. E se houvesse uma pílula? Uma pílula vermelha, branca, amarela etc. Melhor, azul. Azul, que é a cor do céu, do mar, do oceano e até do time do Cruzeiro. Enfim, azul; a cor do planeta. Uma pílula azul, do mesmo azul que decora o quartinho e o berço do bebê, simbolizando o recém nascimento de um menino. Azul, que é cor de macho. O mesmo azul que está ligado a todos esses ítens que, ironicamente, além de azuis, também são substantivos masculinos. São macho. Enfim, vamos imaginar que uma pílula azul, azul de macho, pudesse transformar um gay em hétero. Será que algumas mães não ficariam tentadas e a comprariam? Talvez pedissem com jeitinho, talvez colocassem-na, às surdinas, no copo matinal de vitamina, antes de você ir para a escola. Caso já fosse adulto, talvez preparassem um chá ou café para o filhinho querido. Se morrassem sozinhos, talvez o fizessem uma visita inesperada com um “bolinho”.

Mas, afinal, por que a heterosexualidade está tão implícita em tudo que vivemos? De repente tudo se tomou de azul. Agora mais do que antes percebo o quanto estamos presos a essa cor, o quanto nós, gays, estamos presos à heterossexualidade. O meu antigo carro é azul, o banco que eu tenho conta corrente é azul, e, desculpe a redundância, mas até o azuleijo do banheiro da minha casa é azul. As cuecas que minha avó me dá todo final de ano, como presente de natal, são azuis. O fardamento da marinha do meu pai era azul. Até o ônibus que eu pego para voltar pra casa, Jordão Baixo, é azul. Como se não bastasse, segundo Djavan, em uma de suas letras, até o amor é azul. E advinha o nome da música? Ah, basta!

Parece absurdo, não é? Sinceramente, acho que mais absurdo não é imaginar tal pílula ou o  azul tão implícito no nosso dia-a-dia. Quem sabe se ela já não existe? Absurdo, na verdade, é o fato de que várias mães, pais ou parentes fariam de um tudo para ver seus filhos héteros “novamente”, que aqui é empregado por eles, não pelo fato de que os gays de hoje não tenham sido também gays no passado ou até desde que nasceram, mas porque sempre foram pensados pelos seus pais,  inquestionavelmente, como heterossexuais, como azuis, seguindo, assim, o padrão de “normalidade social”.

Junho 9, 2009

O dia da prova

É clichê, no entanto, imprescindível observar que quanto mais preparado a gente pareça estar para qualquer prova, sempre vão existir constantes obstáculos e surpresas durante toda a sua resolução. Há sempre algo de novo, de misterioso, algo que, talvez, esteja apenas esperando ansiosamente para ser descoberto.

Como se não bastasse o nervosismo praxe antes da prova e aquela constante sensação de ‘eu devia ter me preparado melhor’, devido a incompatibilidades de horários e uma partida esportiva no domingo, tivemos que adiantar o dia do meu vestibular desse ano. Sábado, às 16h30. O local ficou por minha conta. Como de costume, resolvi não alterar muito as coisas. Combinamos no mesmo lugar onde venho fazendo as provas todos esses anos: uma sorveteria modesta perto da casa dele. Devido ao meu senso cronológico nem um pouco britânico, cheguei pontualmente às 16h45, com 15 minutos de atraso. Ainda bem que sou melhor com os horários de compromissos mais sérios.

No começo da prova, tudo muito elementar. Perguntas de ‘como vai você’, ‘o que tens feito atualmente’ e ‘como estão as coisas’. Durante o questionário, conheci alguns dos meus possíveis concorrentes: um garoto comprometido e um desconhecido do banheiro do Centro de Convernções. Parecia que eu estava em vantagem e tinha tudo para aniquilá-los. Mas na verdade isso não me incomodou. Senti-me bastante confortável e relaxado com o nível da prova. Dentre os assuntos abordados houve os temas de praxe quando se trata do vestibular do amor: ex-namorados, paixões atuais e as últimas transas. As respostas também eram de praxe: algumas ironias aqui, uma pitada de sarcasmo ali, mas na maior parte do tempo, humor e descontração. É bem verdade que eu dei uma certa exagerada na redação. Falei demais sobre mim e deixe, talvez, de contextualizar pontos importantes da nossa relação. Acho que não conseguir sustentar meus argumentos de forma racional algumas vezes. Mas, no final foi tudo muito bom. Sem muitas surpresas no decorrer da situação. Talvez até o motivo principal de eu ter me apaixonado.

No entanto, o que realmente me impressionou foi o fato de que mesmo ao longo de todos esses anos, o teor do teste continuou praticamente idêntico, quase intocável: ileso às vicissitudes do tempo. Nem mais fácil, nem mais difícil. E isso foi o que arejou todas as minhas idéias. Ponderei que em todo esse tempo eu venho tentanto fazer um curso que já se comprovou, de fato, um fracasso: instabilidade emocional, incompatibilidade de objetivos e insustentabilidade estrutural, além de muito pouco custo-benefício. Na verdade custo-benefício quase nenhum, visto que fui eu quem pagou o sorvete no final das contas.

Eu aprendi, sem absoluta hipocrisia, que em tudo, apesar do amor, da paixão ou do tesão pelo que a gente faz ou se pré-dispõe a fazer é indispensável haver um retorno. Um policial não arrisca a vida em nome de nenhuma ‘justiça’ com a bosta de salário que recebe, até porque fazê-lo sem a condição certa de trabalho também não seria justo. Até os médicos, considerados os anjos da vida de uma sociedade, sejam nos plantões ou nas clínicas, fazem greves públicas por melhores condições de trabalho e aumentos salariais. Ninguém consegue seguir em frente em algo que gosta sem motivação ou condições, sequer mínimas e adequadas para tal.

O fato é que o resultado desse vestibular não me interessa mais. Também já tenho em mente que não pretendo me inscrever para a prova no ano que vem. Resolvi ouvir de vez por todas os conselhos da minha mãe que sempre me diz que atualmente ainda sou aluno do 7º período de jornalismo, na Universidade Católica de Pernambuco, e que antes de tentar qualquer outro vestibular, seja qual bosta de curso for, tenho que primeiro terminar aquele em que eu já estou e tentar ser feliz com ele até então.

Junho 9, 2009

O vestibular do amor.

Existem momentos da nossa vida em que se torna insuportável o nervosismo de esperar ansiosamente pelo Grand Finale. O resultado do vestibular pode ser um deles, por exemplo. Passamos o ano todo estudando dezenas de assuntos, assistindo a dezenas de aulas, fazendo dezenas de simulados, ansiando no final um bom resultado, uma recompensa. Ansiando, finalmente, um lugar ao sol. Mesmo aqueles não tão estudiosos e os mais desleixados com os estudos devem contar com a mesma ansiedade e insegurança dos mais preparados. Embora suas probabilidades de passar sejam menores, vale a tentativa de fazer a prova, já que nos seus desejos mais tímidos eles não são tão desleixados assim, e mesmo com alguma noção do improvável, aguardam, também ansiosamente, o resultado, pois: ‘algo pode ter dado certo’ ou talvez ‘eu não tenha me dado tão mal quanto pensei’, afinal o vestibular é tão imprevisível, não é mesmo?

Para o caso do vestibular a lógica matemática é bem simples: estudar duro = mais chances de passar. Mas o que dizer em relação ao amor? Mais ainda, o que dizer em relação a um amor não recíproco de 3 anos? Infelizmente, essa mesma lógica aponta probabilidades matemáticas negativas para ainda continuar tentando.

Parece um pouco estúpido ainda perguntar. “O tempo já disse tudo”, pensa o leitor. ‘’Se não deu certo, parte pra outra, sai dessa, move on, desiste, seu otário!’’. Será então burrice ou simplesmente masoquismo não admitir tal derrota? Não aceitar fatos comprovados aritmeticamente? Se usarmos as mesmas palavras para alguém recém reprovado no vestibular, com certeza seríamos taxados de impiedosos, mas quando se trata de amor, somos chamados de sensatos. Mas por que, ao contrário do vestibular, não podemos tentar o mesmo amor de novo no ano que vem? Fazer outros simulados, se aprofundar mais nos estudos e aprender com os erros, algo mais ou menos análogo a conhecer novas pessoas, ser mais responsável com o amor e amadurecer o suficiente, para no final do ano tentar de novo?

Que lei é essa que não nos permite tentar algo novo com o amor antigo? Qual acordo tácito entre os seres humanos nos impede de superar as desilusões amorosas e voltarmos a nos apaixonar pela mesma pessoa? Não será apenas o orgulho nos impedindo arriscar de novo? Ou, talvez, o ressentimento do fracasso por não termos obtido o que planejávamos? Tanto no vestibular quanto no amor, apesar das probabilidades, o resultado sempre é muito incerto. Depende muito do desempenho psicológico, de condições materiais adequadas, da equalização certa do tempo, e não só da aprendizagem do cronograma. Eu decidi apostar no vestibular de novo, ainda que incerto, mas dessa vez com sentimento, com amor. Resolvi deixar o meu orgulho de lado e ponderei que não é com ele que eu quero andar de mãos dadas, nem ter filhos ou construir uma relação.  Acabei decidindo que nem meu orgulho nem qualquer outro sentimento qualquer vão me privar da possibilidade da felicidade, mesmo que incerta, mesmo com quem não deu certo.

Diante de todo esse jogo de certezas e incertezas, decidi sair do torpor da dúvida e ligar para uma pessoa que não vejo há muito tempo, e que tenho tentado evitar mais do que uma derrota no vestibular. Apesar da tensão pré-prova, dos outros concorrentes, possivelmente até mais bem preparados do que eu, e do nível do teste, resolvi marcar logo o dia desse vestibular. Domingo, como de praxe. Talvez eu reprove esse ano também, mas achei que não iria doer tanto quanto os anteriores. Afinal, eu já conheço mais ou menos o esquema da prova, e sobrevivi a 3 anos consecutivos de derrota. Mas, sei lá. Algo novo surgiu. Uma quase esperança me incentivou. Afinal, se até o vestibular de verdade alterou o esquema das provas, talvez esse também tenha sofrido alguma mudança. E caso eu passe, mesmo sob o mérito de pontos de corte dos outros participantes ou do sistema de cotas para os calejados reincidentes na prova, ficarei feliz, pois totalmente despido de orgulho, estarei na faculdade que eu sempre quis e fazendo o curso que eu gosto.