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Edital

Unspoken

Entre nós dois não cabe mais nada. Nem mesmo palavras…

É desafortunadamente impressionante como tudo pode se reconfigurar no período de pós-amor. Falo dos sentimentos, na maioria das vezes, truncados entres dois ex-amantes. Duas ex-paixões. Dois. “Segure a minha mão” pode virar facilmente “não me ligue mais”. É tudo um flash. Uma fração de segundos que transforma as pessoas e seus discursos. E o término da relação se transforma em algo ainda mais avassalador do que seu começo. O desamor, algo ainda mais forte do que o próprio amor.

No dia 10 de julho de 2009, eu conheci alguém que certamente amaria por longa data. Mas eu ainda não sabia disso. Nos encontramos casualmente numa seleção de estágio e através de um e-mail coletivo ele me adicionou no msn. Flertes e mais flertes finalmente viraram um encontro real no cinema da Fundação num domingo despretensioso. “Ele é meio baixinho”, disse mentalmente. “Já comprei nosso ingresso” foi o que minha boca falou de fato. O filme era horrível. Saímos no meio da sessão. Eu sorrindo, ele todo embaraçado com a péssima escolha. Foi exatamente aí que senti: vai dar certo. Afinal, na minha vida, as coisas sempre começam meio truncadas mesmo. É quase dando errado que tudo flui.

E assim foi. Um mês e meio de absoluta fluência.  “Senti teu cheiro” e “queria ter te ligado antes” não saiam das nossas bocas. Na verdade, nós mesmos quase não saíamos das nossas bocas. Queríamos sempre o gosto um do outro. A essa altura, confirmações de amor, de carinho e confiança já eram desnecessários. Tínhamos tudo internalizado.

Mas eu o perdi. O destino se encarregou de uma discussão que mudou nossos rumos. E acabar foi o que pareceu mais sensato no momento. Estranhamente o final foi de tanto amor quanto o próprio começo.  Declarações de “você mudou a minha vida” ratificaram o que nem precisava ser dito. Mas tudo culminou com o fim.

Desde então, durante todo esse tempo eu travo uma batalha diária comigo mesmo, esforçando-me para continuar acreditando no futuro. Esboços breves de outros relacionamentos aconteceram tanto pra mim quanto pra ele. E hoje estamos cada vez mais longe daquelas três horas diárias de conversas por telefone.

Na verdade, sequer nos falamos atualmente. Tanto foi dito, desdito e re-dito que nos perdemos de vez de nós mesmos. E foi isso que fudeu tudo: as palavras. A pseudo-necessidade ridícula de expressar o que sentimos transformando tudo num discurso que no futuro, invariavelmente, se torna dispensável. Dispensável como a própria necessidade de falar as coisas. De dizer, dizer e dizer. De soltar os nós da garganta. Quando se paramos para ser sentatos, tanto poderia ser omitido. Tanto poderia ter salvo o rancor e ódio que as palavras carregam.

“Mas tudo depende do que e como as coisas são ditas?”. Mentira. Aristóteles acreditava no poder da retórica. Marx, na dialética. Mas existem situações na qual nada do que se diga acrescenta algo realmente relevante. As pessoas são sentimentos, não discursos. Principalmente discursos atrapalhados por sentimentos que sequer conseguimos decifrar.

O fato é que já não pronuncio mais o nome dele. Meus amigos não pergutam mais. Isso me ajuda a esquecer. O faz menor dentro de mim. E assim vou vivendo. Um dia de cada vez, um pensamento de cada vez. E principalmente uma palavra de cada vez. Até que alguém marque nova data e hora no meu calendário, mesmo que num dia de chuva ou até pra pegar uma sessão chata no cinema.

Just leave it unspoken.

Sobre O Zepelim

.♠ No ano de 1953 conheci o Madson, ou Moica (como era chamado na época) . Ainda morávamos na Africa do Sul, onde seu avô, Durvalindo da Silva Campos, tinha uma fábrica de papel higiênico. Mudamos para Budapeste, onde passamos toda a nossa infância empinando pipas e brincando com o meu cachorro, o Bob. Porém, perdemos o contato desde que me mudei para o Hawaii. Fiquei sabendo do paradeiro do Madson atráves da notícia de capa do Le Monde, onde tive a oportunidade de saber que ele havia construido uma casa em Istambul e montava maquetes de argila da cidade de Deus. Nostalgicos beijos Moica, saudades dos velhos tempos .♠ (Por Ana Carolina Dias)

Discussão

Uma resposta para “Unspoken”

  1. Não vou escrever para comentar a qualidade do que você escreve, nem para reafirmar o quanto gosto de te ler. Como você disse, algumas coisas ditas não acrescentam nada. Dessa vez, eu te escrevo para perguntar. Mas não te preocupes, não espero respostas. Você desenhou um cenário forte de amor e desamor e nesse lance de pintura moderna, pedaços e fragmentos foram se misturando no discurso. Como numa sacada metalinguística teu texto parece meio conceitual, no sentido de dizer que você diz que não deve dizer, que não precisa dizer, mas, no contrário, diz. E diz muito. Parece que você se esforça para descrever um cenário de ressignificação, para usar uma palavra que os pedagogos amam. Todavia, e ai vai minha pergunta, se algumas coisas não precisam ser ditas, por que as dizemos?

    P.S- Lembrei muito do conto Natureza Viva do nosso Caio Fernando Abreu. Especialmente um trecho que diz mais ou menos assim: “As pessoas dizem coisas. Mas por traz do que dizem há o que sentem e nem sempre se mostra. Há os níveis não formulados, camadas imperceptíveis, e, como dizia, sobretudo emoções”.

    Publicado por Adriano Andrade | outubro 24, 2011, 7:52 pm

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