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Crônicas, Edital

Encontros

Todas as noites dezenas de pessoas saem do trabalho rumo a diversos tipos de bares nos centros, subúrbios e demais localidades da cidade. Enquanto alguns pegam ônibus lotados ou dirijem de volta pra casa, é possível distinguir, sem muito esforço, uma verdadeira procissão que caminha contrário à multidão. O motivo: geralmente clones de cerveja, aperintivos por metade do preço e outros atrativos para fisgar os solteiros durante os dias de semana. A esse tipo de ritual chamamos de happy hour.  O objetivo: encontrar os amigos, sessão relax após um dia estressante ou simplesmente evitar o rush hour. Mas será só isso que buscam todas essas pessoas?

Com uma observação mais apurada é possível perceber intenções subterfúgias por trás desse comportamento. Intenções não discriminadas na conta trazida pelo garçom. Talvez seja uma busca por algo que ainda não acharam em si mesmos. Desconfio que procurem a outrem. Que busquem pessoas interessantes, pra jogar conversa fora, flertar e capazes de transformar uma simples segunda num dia mais tolerável. Mas se buscam pessoas, por que elas não se encontram? Por que tantos ainda voltam sozinhos pra casa?

Admito, é uma teoria meio estranha achar que nós inconscienciosos de nossas próprias atitudes, embora sigamos todos os dias rumo à faculdade, escola, ao trabalho, saimos de casa, na verdade, à procura de simplesmente achar alguém. E que só aqueles que já o têm sabem o prazer de voltar pra casa. A vontade do regresso, o desejo do encontrar. Infelizmente é assim que vejo as coisas.

Desconfio que por trás de todas essas filosofias pseudo-autosuficientes, de contentar-se consigo mesmo e bastar-se quando nada mais houver, a incessante procura humana acaba sempre no outro. Como disse Lacan, toda busca é uma busca de amor. Alguém que nos preencha. E que faça todos os nossos dias eternos sábados. Finais de tarde. Gosto de beijo apaixonado. Saudade no peito.

O fato é que depois de anos acreditando no contrário, ser solteiro é que é careta. Principalmente se a cidade em questão é o Recife. As pessoas simplesmente não se encontram. Todos parecem desconhecer que a única coisa real e palpável é o amor. São gentes tristes em pé nos ônibus, sentadas no metrô ou andando alvoroçadas pela Boa Vista.

O flerte é livre. Mas o legal mesmo é fazer planos. Sim. É poder voltar pra alguém. Acabar a jornada, dividir a conta do jantar e compartilhar problemas.

Mas àqueles que, assim como eu, ainda não terminaram essa busca incessável pelo outro, resta fazer planos para estar preparado quando ele chegar. E se isso parece demasiado piegas ou ridiculamente clichê, não importa. Acho que o remédio é apenas fechar os olhos e se encontrar nas palavras, parafraseadas, de Daniela Mercury: “acho que o destino antes de nos conhecer fez um plano pra juntar eu e você. E o destino em vão tentou me convencer que é melhor não fazer planos pra você…”.

Sobre O Zepelim

.♠ No ano de 1953 conheci o Madson, ou Moica (como era chamado na época) . Ainda morávamos na Africa do Sul, onde seu avô, Durvalindo da Silva Campos, tinha uma fábrica de papel higiênico. Mudamos para Budapeste, onde passamos toda a nossa infância empinando pipas e brincando com o meu cachorro, o Bob. Porém, perdemos o contato desde que me mudei para o Hawaii. Fiquei sabendo do paradeiro do Madson atráves da notícia de capa do Le Monde, onde tive a oportunidade de saber que ele havia construido uma casa em Istambul e montava maquetes de argila da cidade de Deus. Nostalgicos beijos Moica, saudades dos velhos tempos .♠ (Por Ana Carolina Dias)

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