“É engraçado como as pessoas só percebem umas coisas depois de muito tempo. Meu ex me ligou ontem, disse que estava feliz, que tinham promovido ele no trabalho, e agradeceu todos os conselhos que eu lhe dava. Na época ele não escutava. Vivia pedindo pra ele estudar mais. Mudar uns comportamentos. Mas eu achava chato ficar falando…”
Às vezes me pego pensando quão irônico são os desencontros da vida. E quanto mais é percebê-los. Coisas que hoje são tão claras, tão límpidas, e que dificultaram tanto nossas histórias. Quanto tempo perdido até finalmente aprender algo. E a dor. Nossa, a dor… O sofrimento imensurável que temos que passar para poder chegar à lucidez. O quão cegos e sem sentidos a ponto de não perceber a felicidade. E ela passa. Foge entre nossas mãos.
Bruno namorava um menino que, infelizmente, só hoje deve perceber como sua companhia, amor e conselhos chatos eram valiosos. Aprendeu, a duras penas, que toque e cuidado não é o mesmo que sermão. E como já era previsível, ele o perdeu. Bruno não precisa dar mais conselho algum. Ele está envolvido em outro namoro. Mais maduro, mais tranquilo.
Mas o que aconteceu com seu ex? Estará melhor? Terá ainda suas noites despedaçadas pelo desamor? Isso não cabe a mim contar. Mas, qualquer que seja a situação, me solidarizo muito por ele. Há um mundo de semelhanças que nos aproxima. Frases engasgadas, nós atados, sensação de relação inacabada.
Coisas que, talvez, eu e ele ainda teríamos para falar, não fosse também essa necessidade que a vida tem de se reconfigurar para ganhar novo sentido. Coisas que gostaríamos que fossem expostas. Resgatadas. Ditas. Uma meia dúzia de verdades atropeladas pela urgência da imaturidade. Mas é tudo muito rápido. Tudo é já.
E quanta dor… Quantos caminhos cruzados. Quanto poderia ser evitado se apenas escutássemos uns aos outros. Se não gritássemos tanto. Se de olhos fechados apenas disséssemos: me dá tua voz.
Hoje me arrependo não ter escutado mais. Não ter aprendido mais. E isso foi determinante em algumas falhas amorosas. O ex de Bruno fez a ligação. E é legal isso, fiquei feliz que ele tenha aprendido alguma coisa e que dessa relação tenha saído um saldo positivo. Acho um grande ato de bravura a capacidade dele de enfrentar o celular, a voz e os possíveis julgamentos alheios. E é nesse ponto que nossos mundos, praticamente, se misturam. Eu também sou assim. E por isso me solidarizei ainda mais. Pois se um dia eu pudesse lhe dar qualquer conselho que preste, diria: “Escute tudo o que ele te diz, ouça com atenção…”.
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Crônica baseada em história e personagens reais
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