Meu pai morreu vítima da violência do Recife, no ano de 1998, quando saia de uma casa noturna no bairro da Torre. Mesmo não tendo reagido ao assalto e entregando todos os bens, os ladrões lhe deram 3 tiros. Um deles: na cabeça. A esse tipo de crime, onde a violência empregada no roubo causa a morte da vítima, o Código Penal Brasileiro, artigo 157, § 3º denomina de Latrocínio. Pra mim, cidadão comum e filho do homem em questão, tudo isso não passa de um nome pomposo demais que serve apenas para ofuscar a observância do quão animalesco e hediondo esse tipo de crime vem a ser. Na época eu tinha apenas 11 anos.
Treze anos mais tarde, 14 de agosto de 2011, também conhecido como Dia dos Pais ou apenas data pra comprar sapato (como diria minha mãe), ainda não sabemos do paradeiro dos assassinos. Hoje, eles provavelmente já são pais. Ou não. Em todo caso, eles pouco devem lembrar de Edson Ferreira do Nascimento.
Tudo bem que nós nunca tivemos uma relação, assim, muito próxima. Devido às vicissitudes da vida, fomos separados cedo demais para que eu lembrasse do seu rosto. Dizem que eu tenho o sorriso dele. Não sei. Nos vimos não mais do que poucas vezes na infância, e outra mais, aos 7 anos, quando ele me trouxe um trem Maria Fumaça, que funcionava a pilha e óleo de cozinha.
Recebi a notícia da morte, junto com dois amigos, num pedaço de jornal entregue pelo vizinho. Na manchete: Edson tinha apenas 49 anos. Na matéria, informações sobre seus dois apartamentos, um no Recife e outro no Rio, suas viagens constantes e seu cargo de advogado no Fórum Ministro Arthur Marinho, na Av. Recife. Nada constava sobre seus três filhos, mãe, irmã e amigos deixados para trás. Oito anos depois, aprendi na faculdade a denominar isso de sensacionalismo.
Meu pai e minha mãe se separaram pouco depois de eu nascer, no aterro do Flamengo – RJ. Algo que já estava se tornando bastante comum nos anos 80. Nada mais de casamentos arrendados, uniões por conveniência ou juntos para sempre. A palavra de ordem da década era: liberdade; e disco-music, claro. Mamãe pegou suas coisas e foi de volta como retirante nordestina com seus dois filhos, para o Recife. Estava resignada, decidida a sustentar com toda dignidade suas crias. E do jeito como sempre fizera até então: sozinha. Minha mãe não sabia disso, mas em pleno ano de 1987 mamãe já era: pós-moderna.
Vivemos, então, eu e meu irmão Allan, uma infância modesta, cheia de privações e esperanças, mas também com muitos amigos, brincadeiras de rua e amor e brigas de família. O sobrou desta história ainda se constrói nos dias de hoje. Eu me formei em jornalismo, realizei o sonho de morar fora e atualmente tenho um ótimo emprego. Meu irmão está casado, tem uma moto e continua sonhando com um futuro melhor.
Por isso, não faz mal papai. Desejo com fé em Deus que estejas bem onde quer que esteja. E não lhe guardo rancor por sua ausência. Apenas gostaria que soubesse que árduos foram os tempos com nossa família. E de certo outras dificuldades ainda virão. Mas superamos. E que – parafraseando Caio Fernando Abreu, toda cicatriz significa nada apenas que: “eu sobrevivi”. Descanse em paz, papai, e feliz dia de comprar sapatos.
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Crônica escrita 14 de agosto de 2011.
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