Junho 9, 2009...5:21 pm

O vestibular do amor.

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Existem momentos da nossa vida em que se torna insuportável o nervosismo de esperar ansiosamente pelo Grand Finale. O resultado do vestibular pode ser um deles, por exemplo. Passamos o ano todo estudando dezenas de assuntos, assistindo a dezenas de aulas, fazendo dezenas de simulados, ansiando no final um bom resultado, uma recompensa. Ansiando, finalmente, um lugar ao sol. Mesmo aqueles não tão estudiosos e os mais desleixados com os estudos devem contar com a mesma ansiedade e insegurança dos mais preparados. Embora suas probabilidades de passar sejam menores, vale a tentativa de fazer a prova, já que nos seus desejos mais tímidos eles não são tão desleixados assim, e mesmo com alguma noção do improvável, aguardam, também ansiosamente, o resultado, pois: ‘algo pode ter dado certo’ ou talvez ‘eu não tenha me dado tão mal quanto pensei’, afinal o vestibular é tão imprevisível, não é mesmo?

Para o caso do vestibular a lógica matemática é bem simples: estudar duro = mais chances de passar. Mas o que dizer em relação ao amor? Mais ainda, o que dizer em relação a um amor não recíproco de 3 anos? Infelizmente, essa mesma lógica aponta probabilidades matemáticas negativas para ainda continuar tentando.

Parece um pouco estúpido ainda perguntar. “O tempo já disse tudo”, pensa o leitor. ‘’Se não deu certo, parte pra outra, sai dessa, move on, desiste, seu otário!’’. Será então burrice ou simplesmente masoquismo não admitir tal derrota? Não aceitar fatos comprovados aritmeticamente? Se usarmos as mesmas palavras para alguém recém reprovado no vestibular, com certeza seríamos taxados de impiedosos, mas quando se trata de amor, somos chamados de sensatos. Mas por que, ao contrário do vestibular, não podemos tentar o mesmo amor de novo no ano que vem? Fazer outros simulados, se aprofundar mais nos estudos e aprender com os erros, algo mais ou menos análogo a conhecer novas pessoas, ser mais responsável com o amor e amadurecer o suficiente, para no final do ano tentar de novo?

Que lei é essa que não nos permite tentar algo novo com o amor antigo? Qual acordo tácito entre os seres humanos nos impede de superar as desilusões amorosas e voltarmos a nos apaixonar pela mesma pessoa? Não será apenas o orgulho nos impedindo arriscar de novo? Ou, talvez, o ressentimento do fracasso por não termos obtido o que planejávamos? Tanto no vestibular quanto no amor, apesar das probabilidades, o resultado sempre é muito incerto. Depende muito do desempenho psicológico, de condições materiais adequadas, da equalização certa do tempo, e não só da aprendizagem do cronograma. Eu decidi apostar no vestibular de novo, ainda que incerto, mas dessa vez com sentimento, com amor. Resolvi deixar o meu orgulho de lado e ponderei que não é com ele que eu quero andar de mãos dadas, nem ter filhos ou construir uma relação.  Acabei decidindo que nem meu orgulho nem qualquer outro sentimento qualquer vão me privar da possibilidade da felicidade, mesmo que incerta, mesmo com quem não deu certo.

Diante de todo esse jogo de certezas e incertezas, decidi sair do torpor da dúvida e ligar para uma pessoa que não vejo há muito tempo, e que tenho tentado evitar mais do que uma derrota no vestibular. Apesar da tensão pré-prova, dos outros concorrentes, possivelmente até mais bem preparados do que eu, e do nível do teste, resolvi marcar logo o dia desse vestibular. Domingo, como de praxe. Talvez eu reprove esse ano também, mas achei que não iria doer tanto quanto os anteriores. Afinal, eu já conheço mais ou menos o esquema da prova, e sobrevivi a 3 anos consecutivos de derrota. Mas, sei lá. Algo novo surgiu. Uma quase esperança me incentivou. Afinal, se até o vestibular de verdade alterou o esquema das provas, talvez esse também tenha sofrido alguma mudança. E caso eu passe, mesmo sob o mérito de pontos de corte dos outros participantes ou do sistema de cotas para os calejados reincidentes na prova, ficarei feliz, pois totalmente despido de orgulho, estarei na faculdade que eu sempre quis e fazendo o curso que eu gosto.

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