Março 9, 2009...7:32 pm

Le Tub

Ir aos comentários

 ———————————————————

Edgar Hilaire Germain de Gas, ou simplesmente, Edgar Degas, foi um pintor, gravurista e escultor françês. Ficou conhecido pelo seu estilo majoritariamente impressionista, inspirado por nomes como Monet e Bodin, embora aos quais, Degas também difira um pouco, por também contar com obras embasadas pela Renascença italiana e pelo Realismo françês.
A inspiração de Degas era basicamente o cotidiano. Por meio da pintura ele imortalizou os atos mais básicos da rotina parisiense, paisagens, fotos de familias burguesas, tensões maritais, bailarinas, ou neste caso, em dois de seus quadros mais esplêndidos, a cena de um banho.
Degas se interessava pelo comum, pelo real. E como eu, que embora não seja escultor, gravurista e muito menos pintor, apenas escrevo, assim como Degas também me inspiro nos atos cotidianos e essencialmente humanos, achei-me diretamente ligado à pintura.
O texto que segue é uma simulação, um cinismo, talvez até um sacrilegio da minha parte com uma obra tão sublime, mas ainda assim, um tentativa, mesmo que medíocre, de traduzir o que o quadro representa para mim. É apenas uma possibilidade de significado, uma acepção. E como exercicio de casa, peguem uma obra artistica de alguém que gostem, qualquer uma, e tentem traduzi-la em palavras, crônica, história, fantasia, etc, e vejam o que dá. Boa sorte.
 

Letícia entra no quarto com um torpor peculiar da mulher bem amada. Ela revolve ao banheiro, após deixar, habitualmente, o amante à porta. Pega suas roupas, ainda carentes do uso diário, e retoma suas tarefas de rotina.

Ela sabe que o marido está para chegar. Sabe que dentro de pouco minutos, encontrará o homem com quem casou. Homem esse, que mantém a sua honra e sustenta o seu lar.

E sabe, Letícia, ainda mais. Sabe, também, que o tempo não espera. Não espera pela preguiça que se aprochega após um tarde de amor com o amante. Ela tem que voltar a arrumar a casa, para que o marido não desconfie de nada. Mas ainda assim, hesita. Hesita o que, a priori, é inevitável. Evita voltar às atribulaçoes diárias e resolve aproveitar, atipicamente, mais um pouco esse deleite tardio depois do sexo. Evita, como quem em noite de banquete evita a fome. Evita, como quem em dia de sol evita a sede. E evita, como quem evita o próprio medo.

          Letícia ainda quer provar os últimos minutos da culpa que lhe apraz. Aproveitar os últimos instantes do sentimento de vingança que paira por toda amante infeliz vítima de um casamento forjado.

          Letícia ordena suas coisas. Limpa seu quarto. Toma um banho demorado. A demora de quem há muito esperava ser feliz. A demora da vingança justificada pelo amor. A demora dos desesperados por uma vida menos medíocre.

          Ela se lava. E se asseia como quem asseia os próprios segredos. A mulher limpa, e limpa, e ainda limpa, e não se cansa. Lava. Lava. E torna a lavar. Lava cada detalhe do seu corpo como quem tira dele as próprias marcas da culpa. Ela teme. Teme pelo cheiro. O cheiro de quem amou. O cheiro de quem obteve a felicidade do amor dos amantes, ainda mais íntimo que o próprio amor. Le Tub - Degas

          A luz baixa contrasta com sua pele clara como o sol. Seu rosto delgado, nariz aquilino, sua pelo alvo e macio, e seus cabelos vermelhos, os preferidos na França, júbilos da mulher bem dotada, porém não tão vaidosa, o que a ofusca de qualquer suspeita. Rescindem qualquer sombra de dúvidas sobre o vigor da fidelidade dessa mulher. E com o zelo e a delicadeza das mais puras amantes, Letícia limpa sua culpa. Limpa seu dolo. E limpa mais. Limpa sua honra, como quem limpa um papel borrado de tinta enfraquecida. E, assim, somente assim, seu sentimento de culpa se esvai, como a pluma leve que paira no ar. Sua culpa cai, como as folhas mais secas do outono parisiense. E assim, simplesmente assim, seu sentido de culpa esvanece, lavado por um sabonete barato e uma esponja do mar.

 

2 Comentários


Deixe uma resposta