Hoje eu devolvi a chave do meu antigo quarto para o atual residente dele. Eu hesitei ao máximo em devolver as chaves com a inscrição 208. Adiei o quanto pude, mas uma hora, eu sabia que esse momento ia chegar. Para falar a verdade eu sinto falta do meu antigo quarto. Afinal, ele foi o meu primeiro. Foi lá que eu consegui a minha maior independência mobiliária. Um quarto só para mim, sem restrições e sem mãe batendo na porta. Foi lá que eu passei minha primeira noite nos Estados Unidos, foi lá que eu assisti a Sex And The City comendo Dunkin Donuts, foi lá que eu compartilhei, comigo mesmo, tantas coisas boas.
Ele era quase como o meu próprio apartamento reduzido a apenas um cômodo. E talvez o fosse mesmo, visto que eu o pagava mensalmente, tinha toda a privacidade do mundo e podia fazer o que bem entedesse. Era praticamente o sonho imobiliário de quase todo gay independente. Só faltava o aquário em cima da instante, um cachorro na entrada da porta e o carinha que você pegou na balada dormindo no sofá. Era meu. E eu mandava. Parece besteira, mas ter a autonomia do seu próprio lar é uma das coisas mais importantes que existe. É onde você pode ter o que os americanos chamam de S.S.B Secret Single Behavior ou Comportamento Secreto de Solteiro. Aquilo que você faz quando ninguém te vê fazendo, como assistir à pornografia na internet, gritar o mais alto que consegue, ouvir Cher no último volume ou apenas abrir a geladeira nu. Você pode decorar como quer, mudar a mobília de lugar e personalizar todo o ambiente. Cada marca é sua, cada parte tem o seu cheiro, a sua cara.
O 208 foi o máximo que consegui desde que adquiri o meu próprio quarto aos 14 anos. Mas ainda assim era na casa da minha mãe. E se eu era o dono do quarto, ela, a contraponto, era a dona da casa. Minha autonomia ia até os limites que ela impunha. Não se pode ser completamente livre em um quarto que fica apenas a uma porta aberta de distância dos olhos dos seus pais. Isso não significa autonomia, significa apenas liberdade momentânea por metro quadrado. No quarto você pode estar seguro, mas na sala não. No corredor não tem ninguém te olhando, mas na cozinha é melhor se comportar. Aqueles que moram sozinhos e são donos dos seus próprios 208 sabem do que estou falando. E aqueles que ainda moram com os pais, independente de dividir ou não o quarto com o irmão, apenas anseiam por esse momento.
Dizem que quando uma porta se fecha, uma janela se abre. Mas, na porta do meu quarto quem mandava era eu. Era eu quem a abria e fechava para quem quisesse. Era eu que tinha a autonomia de entrar e sair com quem e quantas vezes eu quisesse, sem ser vigiado. E foi assim por quase um mês, antes do argentino chegar. Não foi fácil conviver com ele. Foram quase dois meses de brigas, dividindo o mesmo teto com uma pessoa desorganizada, infantil e bagunceira. O banheiro tinha virado um arsenal de papel higiênico usado e marcas de pés sujos. O lixo, um depósito de cervejas vazias. E as camas, ai, as camas tinham se transformado em um caos completo.
Eu acho que a vida é assim: cheia de portas que se abrem e se fecham. E agora que eu devolvi as chaves do antigo quarto, só me resta desejar que elas estejam em boas mãos, e que ele cuide tão bem do meu antigo quarto quanto eu cuidei. No mais, eu continuo morando no 201, que embora não seja o meu primeiro quarto, quebra o maior galho, e que, querendo ou não, tambem terá outras lembranças para contar.
2 Comentários
Março 23, 2009 às 2:54 pm
É argentino… é meio complicado mesmo!!!!!!! vai se acostumando!
Outubro 15, 2009 às 5:18 pm
Não consigo não comentar..mesmo sabendo que tu pode nem ler, já que é post antigo.
Mas quero ter meu 208!
Ainda que eu não tenha essa repulsa
a morar com meus pais..mas ter um 208 é outra história.
Nem que seja pra ir quando estiver a fim de ficar só ou mal acompanhada!
kkkkkkkkkkkkkkkk
Beijo!
Congratulations!