fevereiro 8, 2010

Os Meus Amores

Bem, já há algum tempo existe no mercado do amor uma teoria, e imagino que bastante complexa, de pessoas que, supostamente, se apaixonam por mais de um alguém ao mesmo tempo. E a essa nova forma multifacetária de gostar convencionou-se chamar de poliamor. No entanto, esse gostar variado também pode ser frequentemente interpretado como indecisão, gula, egoísmo e até safadeza. Seja como for, essa nova dimensão mútipla de amar é também algo muito singular. Afinal, nem todo mundo pode se gabar de padecer do poliamor.

Dividir-se entre várias pessoas, mesmo que de forma não correspondida, é uma situação, no mínimo, complicada. Administrar ciúmes, saudades, raiva, estresse, paixão e até mesmo tesão e sexo, além de todo o resto em dose dupla pode se tornar um labirinto de sentimentos e sentidos, que eventualmente entrarão em ebulição nos deixando malucos, e, nesse caso, literalmente.

Aumentar o raio de abrangência do amor, mesmo que de forma involuntária, é multiplicar não apenas todos os deleites da paixão, mas também a responsabilidade, as vicissitudes e até mesmo um pouco da psicose que habita em toda relação afetiva. No entanto, a contraponto, os sentimentos inseridos num relacionamento não estão, necessariamente, inclusos no outro. Nem sempre há correspondência entre eles. Assim, nessa loucura de emaranhados do nosso caos pós-moderno, é racionalmente possível sentir tesão e paixão por uma pessoa, e amor e ternura por outra.

Contrariando essa lógica, estamos constantemente rodeados pelas almas-gêmeas que habitam o universo mágico da novela das 8h, das comédias -românticas e atualmente dos best-sellers sobre vampiros, que reforçam em nosso imaginário a firme ideia do amor único e eterno. Aquele para todo o sempre. Aquele cujo qual  e sem o qual ficamos tal e qual.

Mas será que ainda estamos preparados para dividir? Será que estamos preparados para nos contentar com apenas um? Afinal, vivendo em plena sociedade dos bens de consumo descartáveis, onde optar não é mais uma necessidade; pode-se ter tudo e em várias quantidades: 3 celulares, 2 televisões, 3 micro-systems, 2 geladeiras (eu mesmo tenho 9 dicionários), além de infinitos e mais infinitos (pode-se ter até vários infinitos) pares de roupas e sapatos, para que então barganhar justamente no amor?

Numa década onde ter mais sinaliza padrão de qualidade, em um mundo onde se é educado para possuir tudo, em um tudo cada vez mais sem limites, em plena era de extinção da palavra “escolha”, não parace absurdo algum se perguntar: três realmente é demais? Afinal, se ventiladores, geladeiras, fogões e automóveis duram no máximo dois anos, por que, então, apostar no amor eterno?

Quando eu era 3ª ano, me apaixonei perdidamente por duas pessoas. Um era o garoto que estudava na minha sala (clichê), cujo qual eu começara a me encantar já nos primeiros meses de aula. A outra, era uma menina com quem eu fazia curso de inglês (ainda mais clichê), e que eu já possuia um tipo de relacionamento. Para mim, aquilo não passava de um grande conflito nietzschiano. Dialogar com aquelas duas relações era algo desesperador. Bem, todos sabem que é totalmente ingênuo pensar que podemos amar duas pessoas de forma equânime, igualitária (sin- ou dessincronizadamente). Mas a pergunta mais difícil era: como e por quem optar? Como gerir esses dois sentimentos e tudo o que eles acarretavam? – tal como minha orientação sexual, minha forma de encarar o mundo e até o jeito de amar e fazer sexo.

Bom, o fato é que durante esse momento dual e que pode acontecer na vida de qualquer pessoa, a pergunta mais sensata, talvez, não seja “como?”, mas, sim, “por quê?”. Isto é, ao invés de “como” vim parar nesta situação ou “como” vou sair dela… quais os motivos “por que” me encontro aqui? – dividido em dois “alguéns”.

E no final, independente de termos ou não a resposta, devemos estar seguros de que a vida em algum momento se encarregará de nos direcionar para um lado, seja ele ou não aquele em que já estávamos mais inclinados para.  E foi assim que fiz minha decisão. Optei pelo garoto. E não demos certo. Mas fico feliz de que ele, mesmo involuntariamente, me abriu os olhos de quem eu realmente era e qual tipo minha predileção afetiva consistia de verdade.  Foi assim, então, como o próprio Nietzsche falou, que consegui sair dessa situação, pois “quem já tem o ‘porquê’ respondido encontra o ‘como’ muito mais facilitadamente”.

janeiro 18, 2010

Pensamentos

Ignorar os fatos não os altera.
Querer nivelar-se com alguém é uma ação medíocre.
Apenas o amor, e não o tempo, cura todas as feridas.

Ninguém é perfeito até que você se apaixone por essa pessoa.

As oportunidades nunca são perdidas; alguém sempre  vai aproveitar as que você deixou passar.

Quando o ancoradouro se torna amargo a felicidade vai aportar em outro lugar.
Não posso escolher como me sinto, mas posso escolher o que fazer a respeito.
Todos querem viver no topo da montanha, mas toda felicidade e crescimento ocorrem durante a escalada.
E quanto menos tempo tenho, mais coisas conseguimos fazer.

dezembro 23, 2009

Escrever, verbo intransitivo

Sempre tive facilidade com as palavras. Principalmente as escritas. Não sei o que é, mas sempre consegui passar muito bem o que pensava através das palavras. Talvez, por isso mesmo escreva: por ser-lhes eternamente grato, e o mínimo que possa fazer é escrever algo em troca.

Milhares de escritores tentaram decifrar o ato da escrita. E outros mais usaram da metalinguística para conceituar o processo de escrever.  Drummond dizia que escrever não é um ato de inspiração. Mas de transpiração. Logo, exige técnica, trabalho, ardor e dedicação. Ao contrário dele, eu escrevo porque me parece natural. Porque me é vital. Tanto quanto o ar, a água, o amor e o sexo. Talvez escreva porque sou pretensioso e ache que sei escrever. Talvez escreva porque sequer o sei, mas encontro na escrita minha única forma de me comunicar. Qualquer que seja o motivo, eu escrevo porque a mim me parece belo. Cada letra ganha corpo, vida, cheiro e conceito por meio da escrita.

Enfim, não pretendo aqui desvendar os mistérios da escrita. Sequer tentar enquadrá-la em um determinado conceito, ideologia. Seria como aprisionar este milagre em palavras, que, por sua vez, não possuem maturidade suficiente para expressar este ato. Enfim, quero apenas tentar reforçar que escrever é realmente um milagre. O milagre de condensar o que se quer e o que se pensa em palavras. Assim, até o cosmos fica perto. Pequeno. Tangível. Libertador. Então escrevo porque só isso me liberta. Porque aprecio este momento.

E mais. Escrevo porque não sei se existirá o amanhã. Porque não sei até quando darei as caras por aqui. Porque não sei se existem palavras também no plano divino. E se elas são tão bonitas quanto as da terra.

Acho que eu escrevo porque não

sei cantar, dançar, pintar ou poetizar a vida e o amor. Então escrevo porque a mim as palavras vêm tranquilas, leves. Voam até mim.

Pensamentos são versos soltos. E escrever é, com certeza, limitá-los. Mas, penso, que também seja dar cores, tamanho, nomes, sentido, ordem, regência e lugar a eles.  Escrevo porque existe um momento sutil entre o que se pensa e a palavra escrita, que me encanta, me intriga, e que tento avassaladoramente agarrar.

Simplesmente, escrevo porque tenho dúvidas. Inquietações. Perguntas, muitas perguntas ainda não respondidas. E porque gostaria me lessem um dia. Escrevo porque concordo com Clarice quando fala que as palavras são fugidias. “Gosto das palavras escritas, porque estas me parecem tocáveis”.  Talvez eu seja que nem Clarice. Há um desejo tão forte que me compele a palavrizar tudo o que sinto. Escrevo porque pouco posso fazer da minha vida. E porque existe essa inquietação, essa vontade insana em transformar o que penso em palavras.

Escrevo porque gosto de pontos de vista, de pessoas, e de coisas que ainda não conheço. Escrevo porque existem palavras e porque eu as sinto. E é muito fácil senti-las. E mesmo quando elas me faltam, continuo a escrever. Assim como as palavras que Clarice não encontrava para exprimir o que sentia. “O que sinto ainda não tem nome”.

Escrevo porque nunca sei onde as palavras podem me levar. E porque gostaria de passar a minha vida assim. Sem saber aonde ir. Escrevo porque existem momentos em que as falas são fortes demais. Contundentes demais. Machucam demais. Escrevo porque as palavras com som são violentas. E quebram o silêncio. E são facilmente deturpadas. Escrevo porque documento. Porque imortalizo o que quero. E a mim mesmo, através do que vem da minha alma.

E finalmente escrevo porque me parece fácil, natural, sutil. E porque deveria ser um verbo intransitivo, como o amor de Mário de Andrade. Escrever não precisa de complemento. Escrevo porque escrevo. E ponto.

E o mais importante é que: escrevo porque sou só; e aprendi a conviver com as palavras.

dezembro 16, 2009

Another Year Older, But Not Wiser

                Há diversas formas de se comemorar um aniversário. E, talvez, não comemorá-lo também seja uma delas.  Uma puta festa, balada com os amigos ou saída casual para o bar da esquina. Essas são sempre as opções de praxe dentro de qualquer cardápio. Mas isso poder depender muito do aniversariante.

                Há sempre aqueles super empolgados, que anseiam 364 dias pelo seu. E que, caso pudessem, parariam o mundo para celebrar a data. Uma amiga sempre tenta transformá-la na mais especial do mundo. Infelizmente, o máximo que conseguiu foi um assalto no ano passado, onde eu fui o mais lesado. Mas ela é um daqueles tipos adeptos a grandes festas e comemorações homéricas.  E que, às vezes, de tão grandiosas e calculadas, acabam funcionando mais como satisfação social do que divertindo o próprio aniversariante.

                Mas também existem os discretos. Os que não preparam nada a mais do que um dia bastante casual, regado a conversas descontraídas, petiscos, bolo e vinho com amigos mais íntimos e família. Próximo a eles, estão os tradicionais. Eles até desejam extravasar nesse dia, mas acabam sempre no mesmo rodízio de pizza ou bolo de chocolate de todos os anos com as mesmas pessoas. Tem ainda os precavidos, que desperdiçam tantas horas organizando um dia perfeito, onde nada corra errado, que perdem as fabulosas possibilidades do inusitado.  Em uma outra esfera, estão os folgados. Todo mundo conhece um deles. Passam um mês na fase de pré-comemoração, como pequenas prévias carnavalescas, arrastam todo os amigos para encher a cara no meio da semana e mesmo após toda a efervescência do dia especial, continuam a cobrar mais bares e baladas ainda a pretexto do aniversário.

                Além destes, existem ainda os aniversariantes do tipo compreensível (que não liga se só aparecer metade da lista de convidados), descolado (que tenta uma coisa diferente todos os anos) e antisocial (que passa o dia no quarto com o telefone desligado). E muitos outros.

Mas há também aqueles para quem o dia especial nem é tão especial assim. E esse é o meu caso. Eu me encaixo naquele pequeno grupo de pessoas resignadas com a falta de sorte desta data cair em plena quarta-feira, por exemplo. Ou num dia de uma prova, talvez. Ou nas férias de julho (quando não haverá os colegas de sala para cantar parabéns em coro). Ou apagado por um feriado nacional ou aniversário do irmão mais velho (que completa um dia antes). Daí sempre rola uma comemoração 2-em-1, enquanto ele ele fica com a festa e você com a ressaca.

                 Enfim, embora nenhum desses seja o meu caso, eu sempre acho essa data um pouco dramática. É que ano após ano, eu me vejo nos mesmos erros e sem fazer, por assim dizer, muito progresso. São relacionamentos mal sucedidos, empregos falidos e amizades cada vez mais distantes. Enfim, é como se fossem as mesmas armadilhas só que também mais velhas. Mais sérias, formais, como os ternos de 35 aposentando os All Stars dos 17. Mas ainda assim, de alguma forma, fazendo a mesma merda. E quando chega o “grande dia”, pondero: será que estou ficando mais esperto, responsável e maduro… ou apenas mais… velho? (Ick!). Bom, foi seguindo esse tipo de lógica que os americanos criaram o ditado another year older and none wiser. Seriam eles, assim como eu, burros o suficientes para a cometer os mesmos erros todos os anos?

Charles Chaplin um dia escreveu que o ciclo da vida devia ser ao contrário. Deveríamos morrer primeiro, daí ser chutado de um azilo por estar novo demais, trabalhar árduo e depois, como recompensa, viver a infância, acabando tudo com uma grande explosão de orgasmo. Se isso fosse certo, estaria eu então, aos 22, velho ou novo demais para achar esses rituais de aniversário desimportantes e, até, um pouco monótonos?

Bom, o fato é que nunca haverá uma resposta sensata, e satifatória, para a proporção erros-acertos cometidos ano após ano. Talvez o ideal mesmo é não ficar pensando no que de ruim já fizemos e tentar, apenas, chegar ao ano que vem com erros, senão menores, ao menos diferentes.

[esta crônica foi escrita no dia do meu aniversário 22.11]

dezembro 11, 2009

Os opostos

É impressionante a capacidade das pessoas que se gostam de encontrar barreiras. E mais: de parar diante delas. Quanto tempo desperdiçado admirando embasbacado o tamanho das montanhas ao invés de procurar formas de tentar ultrapassá-las. Algumas dessas barreiras vêm como sinônimo de um novo relacionamento. Já outras, como no meu caso, conseguem incrivelmente chegar antes de sequer começar um.

Nesses últimos meses, ou, neste caso, namorados, a coisa mais real e concreta com que me deparei não foi amor, paixão, carinho ou amizade nos relacionamentos, mas barreiras. Eu vi, dia após dia, eles se afastarem de mim por motivos, segundos eles mesmos, de “incompatibilidades” na relação, “posturas” díspares, e, neste último caso, até minha “futilidade” exacerbada.

Quando meu ex-namorado me alertou sobre nossas divergências, ainda tentei recorrer. Fiz um mapa do que poderia ser melhorado, onde cada um deveria ceder, ponderei que dentro das nossas antíteses, havia também linhas de confluência… Enfim. Fui bastante didático. Mas quando ele resolveu acabar comigo por causa disso, antes mesmo de colocarmos o plano em prática, pensei: que babaca, azar o dele. Foi estupidamente da boca pra fora. No fim, fui eu que demorou um século para mastigar o término da relação, chorou, mobilizou os amigos e teve várias crises de carência. É foda: me senti um lixo. Ainda mais frustrante do que um “nunca aconteceu” é um “não deu”, quase sempre impregado de culpa e ressentimentos. Meu, e deles.

É como se um de nós não tivéssemos feito a sua parte, pulado a lição de casa ou gazeado uma aula. Não adianta: por mais filosófico ou metafísico que um fim de namoro possa vir a ser, existe sempre um fator cabal, humano, matemático, quase que palpável, restante no final de um relacionamento. A culpa. Não a culpa de sentir, mas a culpa de culpar mesmo. Explico: não é nada que uma das partes deva ou não remoer, admitir ou, sei lá, transcender, como sinônimo de arrependimento ou remorso. É a culpa pela culpa. Acabou por causa de… e, assim, depois das reticências, naturalmente, como oração de causa e efeito, virá também o culpado. E pode ser até o destino ou algo mais abstrato. Mas a culpa continuará lá, concreta, visível e apontável, como quase sempre acontece, depois da relação, pelos mais infringidos.

Bom, o caso mais recente é patético. Foi uma relação construída na internet, à base do intangível, do intocável, regado por palavras e imagens mesmo. Tudo 100% cyber-feeling. E (rapidamente), como é poderosa essa coisa do cyber-feeling, né! É super louco. De repente, você se pega chorando ou com saudades de uma pessoa que sequer viu ou sentiu, nos seus braços, por exemplo. É a guerra ao mundo cético e pagão, rendível  apenas ao carnal. Enfim…

O fato é que, como dizia, na minha última relação, que foi à base do cyber-super-feeling-made-relationship, passei por algo cyber-super-feeling-idêntico. Após alguns meses teclando (yuh hu, viva a internet), leio: “sinto que somos muito diferentes (blá, blá, blá)… nosso caminho não se toca (blá, blá, blá)… beijos”. Na hora, pensei: oi? Nem a gente se toca. Mas enfim, me senti tão mal e sofri tanto quanto antes.  

Serei eu, assim, algum tipo de monstro? Ou apenas o “not-to-marry-type”? Para qualquer que seja a resposta, acho que, de uma forma geral, ninguém é tão diferente assim a ponto de ser irrelacionável.  E aquelas pessoas que resistem fácil às divergências, físicas, ideológicas ou de comportamento, é que são, por assim dizer, as diferentes. São elas que nunca conseguirão sair da zona de conforto do parecido, do igual e da mesmice. São pessoas que, infelizmente, vão demorar um pouco para pensar do lado de fora da caixa e aprender a não gostar só do amarelo. Que seja válido sempre uma ruptura por causa das divergências, e de qualquer tipo. Mas que se procure, primordialmente, encarar as diferenças mais como um desafio do que sempre como um empecilho, também. E que se aprenda a ceder antes de desistir. E principalmente, a medir o lado certo da balança entre o amor puro e bacana que já existe ou pode vir a nascer e o defeito tão dito inaceitável.

E quanto a mim, vou continuar a ter como inspiração a Bela e a Fera, A princesa e o Sapo, Shrek e Fiona, e todos aqueles que passaram por cima das diferenças (iniciais ou não) em nome do almeijado happily ever after.