Confesso que sempre tive uma certa mágoa do dia dos namorados. Talvez porque eu nunca tenha conseguido celebrá-lo com a devida propriedade. Ou não estava com ninguém na época, o que aconteceu na maior parte das vezes; ou estava com alguém emocionalmente irrelevante. E, em qualquer uma das situações, nunca estava namorando. Levei um certo tempo para perceber do que realmente se trata essa data. Semprei achei o dia algo muito frívolo, fútil, inútil até. Pra que celebrar o dia dos namorados? Por acaso existe o dia dos solteiros? Dos enrolados? Dos ficantes? Dos divorciados? Por que esses estatus não merecem também uma data célebre, com a mesma relevância, para comemorar a ocasião? Talvez porque seja uma tarefa muito fácil não estar envolvido, de fato, num compromisso estatizado, como no caso dos enrolados e ficantes, e infinitamente mais fácil estar só, como no caso dos solteiros e divorciados.
O namoro é provavelmente a relação mais difícil de se conviver. Entenda-se a palavra namoro, aqui, simbolizando a relação entre duas pessoas, em qualquer tipo de instância, tal como um noivado ou casamento, por exemplo. Família não se escolhe. A gente nasce com, atura e ponto final. Existirá sempre um laço consanguíneo unindo seus integrantes. Já os amigos, ao que dizem, são a família que nós escolhemos, e o que os une é essa sensação mútua de pertencença ao mesmo grupo. Um amor que se desenvolve e se concretiza ao decorrer dos anos. Parceiros de trabalho e colegas de profissão, quando muito, também fazem parte do grupo de amigos. Quando não, serão pessoas que sempre nos relacionaremos com fins exclusivamente profissionais. E gostando ou não, também teremos que aturar. Mas quando se trata de namorado, qual categoria devemos aplicar? Parece algo tão excludente de todos os outros círculos de relacionamentos. Envolve amor, mas também envolve sexo. Envolve amizade, mas não fraternal demais porque senão perde o tesão. Envolve parceria de vida e, às vezes, até profissional, mas também envolve paixão.
Enfim, o namoro parece ser um misto de todos os problemas das outras relações juntas, com o agravante de não ser nenhuma delas. Até o quantitativo de pessoas da relação é extremamente menor. Resume-me ao outro e ponto. E por mais amigos, parentes ou colegas de trabalho que se tenha, eles nunca compreenderão a totalidade de tal relacionamento. E isso se dá pelo simples motivo de que, por mais por dentro que eles estejam da nossa relação, eles nunca estarão, de fato, dentro dela.
Sempre achei que era um solteirão muito bem resolvido. “Não preciso de namorado para ser feliz, ponto”. Sempre fui adepto do conceito de ‘’solteiro sim, sozinho jamais’’. Atualmente estou solteiro e sozinho. Não me sinto mal com isso, mas também não me tornei cínico o suficiente para desacreditar que no próximo Dia dos Namorados pode ser eu, também, fazendo um passeio bem meloso e comendo chocolate na fila para o cinema.
Apesar de super clichê, ontem eu fui pedido em namoro. Não da maneira mais apropriada, nem pela pessoa que eu gostaria que o fizesse. Não aceitei. Na verdade, ainda nem respondi. Achei muito indelicado dar um ‘’não’’ assim na cara de alguém nas vésperas do dias dos namorados. Ponderei que uma dúvida, neste caso, seria melhor do que a resposta. Na verdade, eu fico lisonjeado com o pedido, mas desejo-lhe um melhor namorado do que eu posso ser.
Em relação a todos que disseram “sim” e hoje comemoram a magia de serem felizes ao lado de seus respectivos amores, um esplendoroso Dia dos Namorados. Afinal, não é porque existem milhares de solteirões que nem eu por aí afora que os casais não têm o direito de comemorar a data passando nas nossas caras esse dia, como para ratificar que ainda estamos só, não é verdade?
Enquanto a mim, ainda não achei o carinha do cavalo branco. Talvez ele nunca venha, mas em todo caso, deixarei as minhas janelas bem abertas para escutar caso alguém bata à porta.
[Esta Crônica foi feita no dia dos namorados deste ano]