Junho 25, 2009

A Pílula

Essa semana, confesso que fiquei  bastante chocado com um diálogo que tive, antes da novela, com a minha mãe. “Se a terapia não fizer com que você volte a ser hétero, não vou mais pagar” (sic), disse ela, de forma totalmente branda.

Antes de descorrer sobre o absurdo, fica uma nota. A sigla sic, tem origem do latim, e é muito usada nos textos jornalísticos para relatar com precisão o que a fonte falou. O sic só é utilizado, no entanto, quando há erro gramatical ou semântico na frase, e tal erro é tão importante para o entedimento da notícia, que o jornalista, ao invés de relevá-lo, transcreve-o exatamente como foi dito, utilizando-se do sic para que o leitor tenha a noção que, além de não ser um erro de redação de texto, tais palavras foram exatamente as proferidas pelo entrevistado, ou o mais perto disso possível. O sic, neste caso, não foi empregado para identificar um erro gramatical, ou seja, no campo da construção da frase, ou semântico, no campo de significação da mesma. Ele serviu para identificar um erro ideológico. O simples conceito de que minha mãe, a famigeradora da notícia, assim como milhares de pessoas brancas, classe média e heterossexuais (achou preconceituosos os adjetivos?, eu também achei o meu), realmente achava que eu poderia, como ela mesma disse, “voltar a ser hétero” (sic, novamente).

Não vamos nos deter sequer na discussão de: “nascer ou não nascer gay, eis a questão”. Isso deixo para uma próxima oportunidade. Mas ao fato de que em meio ao caos pós-moderno, pessoas ainda concebem que alguém pode heterossexualizar-se. Parêntesis: nos EUA, onde, aparentemente, tudo é possível, principalmente as coisas mais esdrúxulas e bizarras, existe um termo para denominar as pessoas que “deixaram de ser homossexuais” – o yestergay. Algo do tipo: era veado* ontem, hoje não sou mais. Não vale nem a pena comentar, pois acho isso tudo uma frescura, e até o próprio nome para designar o agora, então, hétero é a maior viadagem. Pra mim, isso tudo é só coisa de veado.

Mas voltando aos héteros, não puder evitar, exceto, chocar-me, apesar de cruas, não com as palavras, mas, sim, com o conceito que minha mãe deixou explícito. Claro, admito, que estou ciente de toda aquela baboseira de conflito de gerações, blá blá blá. Mas o fato é que essa é uma ideia, além egoísta, extremamente capitalista, de que uma terapia resolveria “o problema”. Dinheiro + tratamento =  cura. E ainda há a ideia implícita diante da insatisfação do serviço: tratamento + ausência de resultados = suspensão do pagamento. Sinceramente, não me surpreenderia muito se minha mãe se sentisse lesada o suficiente a ponto levar o caso pro Procon. “Deu defeito no serviço, quero meu dinheiro de volta, idenização, outro tratamento, outro remédio; uma cura”.

- Desculpe, minha senhora, mas, infelizmente, contra essa “doença” não existe profilaxia.

Não pude evitar, exceto imaginar. E se houvesse uma pílula? Uma pílula vermelha, branca, amarela etc. Melhor, azul. Azul, que é a cor do céu, do mar, do oceano e até do time do Cruzeiro. Enfim, azul; a cor do planeta. Uma pílula azul, do mesmo azul que decora o quartinho e o berço do bebê, simbolizando o recém nascimento de um menino. Azul, que é cor de macho. O mesmo azul que está ligado a todos esses ítens que, ironicamente, além de azuis, também são substantivos masculinos. São macho. Enfim, vamos imaginar que uma pílula azul, azul de macho, pudesse transformar um gay em hétero. Será que algumas mães não ficariam tentadas e a comprariam? Talvez pedissem com jeitinho, talvez colocassem-na, às surdinas, no copo matinal de vitamina, antes de você ir para a escola. Caso já fosse adulto, talvez preparassem um chá ou café para o filhinho querido. Se morrassem sozinhos, talvez o fizessem uma visita inesperada com um “bolinho”.

Mas, afinal, por que a heterosexualidade está tão implícita em tudo que vivemos? De repente tudo se tomou de azul. Agora mais do que antes percebo o quanto estamos presos a essa cor, o quanto nós, gays, estamos presos à heterossexualidade. O meu antigo carro é azul, o banco que eu tenho conta corrente é azul, e, desculpe a redundância, mas até o azuleijo do banheiro da minha casa é azul. As cuecas que minha avó me dá todo final de ano, como presente de natal, são azuis. O fardamento da marinha do meu pai era azul. Até o ônibus que eu pego para voltar pra casa, Jordão Baixo, é azul. Como se não bastasse, segundo Djavan, em uma de suas letras, até o amor é azul. E advinha o nome da música? Ah, basta!

Parece absurdo, não é? Sinceramente, acho que mais absurdo não é imaginar tal pílula ou o  azul tão implícito no nosso dia-a-dia. Quem sabe se ela já não existe? Absurdo, na verdade, é o fato de que várias mães, pais ou parentes fariam de um tudo para ver seus filhos héteros “novamente”, que aqui é empregado por eles, não pelo fato de que os gays de hoje não tenham sido também gays no passado ou até desde que nasceram, mas porque sempre foram pensados pelos seus pais,  inquestionavelmente, como heterossexuais, como azuis, seguindo, assim, o padrão de “normalidade social”.

Junho 9, 2009

O dia da prova

É clichê, no entanto, imprescindível observar que quanto mais preparado a gente pareça estar para qualquer prova, sempre vão existir constantes obstáculos e surpresas durante toda a sua resolução. Há sempre algo de novo, de misterioso, algo que, talvez, esteja apenas esperando ansiosamente para ser descoberto.

Como se não bastasse o nervosismo praxe antes da prova e aquela constante sensação de ‘eu devia ter me preparado melhor’, devido a incompatibilidades de horários e uma partida esportiva no domingo, tivemos que adiantar o dia do meu vestibular desse ano. Sábado, às 16h30. O local ficou por minha conta. Como de costume, resolvi não alterar muito as coisas. Combinamos no mesmo lugar onde venho fazendo as provas todos esses anos: uma sorveteria modesta perto da casa dele. Devido ao meu senso cronológico nem um pouco britânico, cheguei pontualmente às 16h45, com 15 minutos de atraso. Ainda bem que sou melhor com os horários de compromissos mais sérios.

No começo da prova, tudo muito elementar. Perguntas de ‘como vai você’, ‘o que tens feito atualmente’ e ‘como estão as coisas’. Durante o questionário, conheci alguns dos meus possíveis concorrentes: um garoto comprometido e um desconhecido do banheiro do Centro de Convernções. Parecia que eu estava em vantagem e tinha tudo para aniquilá-los. Mas na verdade isso não me incomodou. Senti-me bastante confortável e relaxado com o nível da prova. Dentre os assuntos abordados houve os temas de praxe quando se trata do vestibular do amor: ex-namorados, paixões atuais e as últimas transas. As respostas também eram de praxe: algumas ironias aqui, uma pitada de sarcasmo ali, mas na maior parte do tempo, humor e descontração. É bem verdade que eu dei uma certa exagerada na redação. Falei demais sobre mim e deixe, talvez, de contextualizar pontos importantes da nossa relação. Acho que não conseguir sustentar meus argumentos de forma racional algumas vezes. Mas, no final foi tudo muito bom. Sem muitas surpresas no decorrer da situação. Talvez até o motivo principal de eu ter me apaixonado.

No entanto, o que realmente me impressionou foi o fato de que mesmo ao longo de todos esses anos, o teor do teste continuou praticamente idêntico, quase intocável: ileso às vicissitudes do tempo. Nem mais fácil, nem mais difícil. E isso foi o que arejou todas as minhas idéias. Ponderei que em todo esse tempo eu venho tentanto fazer um curso que já se comprovou, de fato, um fracasso: instabilidade emocional, incompatibilidade de objetivos e insustentabilidade estrutural, além de muito pouco custo-benefício. Na verdade custo-benefício quase nenhum, visto que fui eu quem pagou o sorvete no final das contas.

Eu aprendi, sem absoluta hipocrisia, que em tudo, apesar do amor, da paixão ou do tesão pelo que a gente faz ou se pré-dispõe a fazer é indispensável haver um retorno. Um policial não arrisca a vida em nome de nenhuma ‘justiça’ com a bosta de salário que recebe, até porque fazê-lo sem a condição certa de trabalho também não seria justo. Até os médicos, considerados os anjos da vida de uma sociedade, sejam nos plantões ou nas clínicas, fazem greves públicas por melhores condições de trabalho e aumentos salariais. Ninguém consegue seguir em frente em algo que gosta sem motivação ou condições, sequer mínimas e adequadas para tal.

O fato é que o resultado desse vestibular não me interessa mais. Também já tenho em mente que não pretendo me inscrever para a prova no ano que vem. Resolvi ouvir de vez por todas os conselhos da minha mãe que sempre me diz que atualmente ainda sou aluno do 7º período de jornalismo, na Universidade Católica de Pernambuco, e que antes de tentar qualquer outro vestibular, seja qual bosta de curso for, tenho que primeiro terminar aquele em que eu já estou e tentar ser feliz com ele até então.

Junho 9, 2009

O vestibular do amor.

Existem momentos da nossa vida em que se torna insuportável o nervosismo de esperar ansiosamente pelo Grand Finale. O resultado do vestibular pode ser um deles, por exemplo. Passamos o ano todo estudando dezenas de assuntos, assistindo a dezenas de aulas, fazendo dezenas de simulados, ansiando no final um bom resultado, uma recompensa. Ansiando, finalmente, um lugar ao sol. Mesmo aqueles não tão estudiosos e os mais desleixados com os estudos devem contar com a mesma ansiedade e insegurança dos mais preparados. Embora suas probabilidades de passar sejam menores, vale a tentativa de fazer a prova, já que nos seus desejos mais tímidos eles não são tão desleixados assim, e mesmo com alguma noção do improvável, aguardam, também ansiosamente, o resultado, pois: ‘algo pode ter dado certo’ ou talvez ‘eu não tenha me dado tão mal quanto pensei’, afinal o vestibular é tão imprevisível, não é mesmo?

Para o caso do vestibular a lógica matemática é bem simples: estudar duro = mais chances de passar. Mas o que dizer em relação ao amor? Mais ainda, o que dizer em relação a um amor não recíproco de 3 anos? Infelizmente, essa mesma lógica aponta probabilidades matemáticas negativas para ainda continuar tentando.

Parece um pouco estúpido ainda perguntar. “O tempo já disse tudo”, pensa o leitor. ‘’Se não deu certo, parte pra outra, sai dessa, move on, desiste, seu otário!’’. Será então burrice ou simplesmente masoquismo não admitir tal derrota? Não aceitar fatos comprovados aritmeticamente? Se usarmos as mesmas palavras para alguém recém reprovado no vestibular, com certeza seríamos taxados de impiedosos, mas quando se trata de amor, somos chamados de sensatos. Mas por que, ao contrário do vestibular, não podemos tentar o mesmo amor de novo no ano que vem? Fazer outros simulados, se aprofundar mais nos estudos e aprender com os erros, algo mais ou menos análogo a conhecer novas pessoas, ser mais responsável com o amor e amadurecer o suficiente, para no final do ano tentar de novo?

Que lei é essa que não nos permite tentar algo novo com o amor antigo? Qual acordo tácito entre os seres humanos nos impede de superar as desilusões amorosas e voltarmos a nos apaixonar pela mesma pessoa? Não será apenas o orgulho nos impedindo arriscar de novo? Ou, talvez, o ressentimento do fracasso por não termos obtido o que planejávamos? Tanto no vestibular quanto no amor, apesar das probabilidades, o resultado sempre é muito incerto. Depende muito do desempenho psicológico, de condições materiais adequadas, da equalização certa do tempo, e não só da aprendizagem do cronograma. Eu decidi apostar no vestibular de novo, ainda que incerto, mas dessa vez com sentimento, com amor. Resolvi deixar o meu orgulho de lado e ponderei que não é com ele que eu quero andar de mãos dadas, nem ter filhos ou construir uma relação.  Acabei decidindo que nem meu orgulho nem qualquer outro sentimento qualquer vão me privar da possibilidade da felicidade, mesmo que incerta, mesmo com quem não deu certo.

Diante de todo esse jogo de certezas e incertezas, decidi sair do torpor da dúvida e ligar para uma pessoa que não vejo há muito tempo, e que tenho tentado evitar mais do que uma derrota no vestibular. Apesar da tensão pré-prova, dos outros concorrentes, possivelmente até mais bem preparados do que eu, e do nível do teste, resolvi marcar logo o dia desse vestibular. Domingo, como de praxe. Talvez eu reprove esse ano também, mas achei que não iria doer tanto quanto os anteriores. Afinal, eu já conheço mais ou menos o esquema da prova, e sobrevivi a 3 anos consecutivos de derrota. Mas, sei lá. Algo novo surgiu. Uma quase esperança me incentivou. Afinal, se até o vestibular de verdade alterou o esquema das provas, talvez esse também tenha sofrido alguma mudança. E caso eu passe, mesmo sob o mérito de pontos de corte dos outros participantes ou do sistema de cotas para os calejados reincidentes na prova, ficarei feliz, pois totalmente despido de orgulho, estarei na faculdade que eu sempre quis e fazendo o curso que eu gosto.

Abril 17, 2009

Crônica do amor

Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta.
O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.
Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.
Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.
Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.
Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.
Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no ódio vocês combinam. Então?
Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.
Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo.
Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama este cara?
Não pergunte pra mim, você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor.
É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível.
Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?
Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.
Não funciona assim.
Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível.
Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!
Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem precisa.

Arnaldo Jabour

Abril 4, 2009

Traições

Há algum tempo, em Ashland, na cidade onde eu morava, vi uma das mulheres mais fortes que conheci nos Estados Unidos cair. Após três meses de saidas, flertes casuais e paqueras descomprometidas, ela sucumbiu, talvez aos seus instintos, talvez às suas necessidades, e traiu o namorado, com o qual possui uma relação de 4 anos.

                Se o homem é considerado o ser mais adaptável do planeta, e forte o suficiente superar desilusões amorosas ou governar um país, o que existe, então, nos relacionamentos que o torna tão sucetível?

Será a traição um ato de fraqueza ou de muita coragem? Coragem para deixar os instintos mais selvagens transpirarem e dar vazão ao próprio desejo. Coragem para fazer algo que é comumente mal  visto, e em alguns casos até contra a lei.

Se a promessa ao pé do altar baseada no juntos na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, até que a morte os separe não é o suficiente, então, o que mais será?

Uma coisa é certa. Todos, indistintamente, se deparam com a traição. Será ela, então, algo inerente à raça humana? Algo, talvez, que assim como o ar, não poderiamos viver sem? Ou será que Rousseau estava certo? A sociedade é que corrompe o homem. Será a traição algo de amor ou de instinto? Amor próprio suficiente para não trair a própria vontade de trair. Ou instinto de apenas obedecer a essa vontade sem nem pensar. Ou será os dois? Ou será isso apenas um papo cretino?

No islamismo, não é considerado traição um homem possuir até quatro esposas. O próprio Maomé teve 16 casamentos simultaneos. Em algumas das primeiras civilizações, as mulheres eram detentoras desse direito. Quando seus maridos iam à guerra, elas eram estimuladas a ter filhos com outros parceiros para dar continuidade ao clã.  Devida a essas circunstancias, seria ainda bom senso ou apenas egoismo pedir por fidelidade? Será traição, então, algo relativo? Algo que depende apenas do referencial? E caso seja, por que para o mundo ocidental o refencial é a monogamia? No próprio Velho Testamento, Jacó teve duas mulheres e treze filhos, e a sua prole deu origem às Trezes Tribos de Israel. Os Mórmons também eram poligamos até 1890.

Será a traição algo mais forte do que nós? Que motivos levam a ela? Eu trai minha ex-namorada com um cara. Usei a desculpa de que o estava fazendo com alguém que realmente amava, pessoa essa que, inclusive, já conhecia, gostava e possuia uma relação de afeto antes mesmo do próprio namoro, o que embora seja um bom argumento, não torna, claro, meu ato mais licito. Depois, a trai com um cara que mal conhecia, mas que estava a fim de ficar e usei a desculpa de que era apenas um garoto, sem relevância emocional alguma, e ela, por sua vez, não deveria se sentir ameaçada ou, pelo menos, não tão mal por causa disso. Quando acabaram as desculpas, trai pelo simples ato de trair, porque tinha virado uma rotina para mim, quase como beber Coca-cola.  Pronto. Já posso me considerar completo? Será que passei por todas as fases de uma relação típica da pós-modernidade? Flerte, transa casual no primeiro encontro, promessas solenes de amor eterno e, finalmente, traição. Ou será que sou apenas mais um canalha?

Eu não pude deixar de pensar que dentro deste âmbito sexual tão confuso no qual se econtra a nossa sociedade, com direito a menagens à trois, casas de swing para troca de casais, disk sexo, bissexualidade, voyeurismo e pansexualidade, qual seria mesmo o conceito de traição? Não será algo mutável com o tempo e com a ocasião? Não será algo que por mais que rotulemos nunca conseguiremos definir? Ou não? O mais provável é que seja mesmo bullshit, e chifre realmente não existe, é apenas algo que colocam na sua cabeça.