No último sábado, antes de sair à feira, ainda nas primeiras horas da manhã, eu e minha cara de ressaca encontramos um dos meus exs abastecendo o carro no posto de gasolina do bairro. Apesar de ex, nós não tivemos aquela paixão avassaladora ou um romance tórrido e contundente, nem muito menos juras de amor interminável. Foi apenas sexo. E, felizmente, dos melhores. Daqueles que não deixam, em nada, a desejar às historinhas bonitinhas de romance eterno.
Nos conhecíamos desde infância. Devido ao destino, e também a uma pequena ajuda das minhas segundas intenções, não nos tornamos amigos. Mantivemos sempre, e por sorte, aquela distância saudável entre um “oi” casual e uma possível transa. Nada de melhores amigos. Nada de segredinhos. Nada de “brodagem” e grandes aventuras. Apenas nossos simplórios e eficientes “boa-noite”.
Confesso que já saímos juntos, compartilhamos algumas mesas de bar e até rachamos um táxi de volta pra casa um dia. Mas nunca nos tornamos amigos de fato. Passávamos meses sem nos vermos. Às vezes até eu me perguntava por que sempre nos falamos por intermédio de alguém ou só nos víamos por causa dos amigos em comum. Mas quando nos encontrávamos, percebia que nossa relação nunca passaria mesmo de um boa-noite, educado e formal, e do meu puta tesão.
Até que num desses dias bem inúteis durante a semana, saí com alguns colegas para um bar no meu bairro. Após algumas horas, várias conversas fiadas e muitas cervejas, ele chegou. Na época, fazia uma linha skatista bad-boy, com roupas rasgadas e cara de sujinho. Porém, seus lábios tinham os contornos mais delicados e rosados da mesa. Seu físico meio magricela, meio musculoso, variava como o côncavo e o convexo da Casa do Planalto. E seus cabelos esvoaçavam desobedientes na cara, reforçando ainda mais aquele olhar de malzinho. Enfim, o look comum de um perfeito ébano juvenil em pleno desenvolvimento.
Quando ele puxou uma cadeira à minha frente, comecei a tremer. Eu, que antes definia a pauta dos assuntos da mesa, não conseguia agora sequer me articular para o nosso de praxe “boa noite”. Relaxei algum tempo depois, mais pela anestesia da sua presença cativa e enigmática do que pelo conforto da situação, verdadeiramente. Após mais algumas sessões de conversa fiada e cervejas, ficamos mais à vontade. Leves. Ao contrário do que eu achava, acabei descobrindo nele um rapaz simples. Bacana. Tão comum quanto o nosso “boa-noite”. E que, embora escutasse Led Zeppelim, tinha crescido mesmo ouvindo Legião Urbana.
Quando achei que tudo se encaminhava bem para transpassar o limite das nossas conversas fáticas: a primeira discussão. Ele amava o Nirvana, e eu era louco pelo Pearl Jam. “Acho o Pearl Jam uma bosta. Só gosto do unpplugged”, lembro ele dizendo. Absurdamente puto, deitei o copo na mesa e disse que preferia conversar com alguém que tivesse um background musical mais amplo, e não idolatrasse apenas o Nirvana como a melhor banda grunge de todos os tempos por falta de conhecimento de causa e excesso de alienação MTV. “Seu comentário foi sórdido e muito mal embasado”, lhe disse dando vazão ao que pensava. A rixa era clara: eu jamais poderia alimentar pensamentos sódidos por alguém que tinha sido sórdido com os meus pensamentos.
Enfim. Brigamos justamente no momento em que estávamos prestes a nos conhecer. A merda estava instaurada e ficamos de biquinho o resto da noite. Eu, no entanto, continuava a olhá-lo e admirá-lo como sempre: algo superiormente mais bonito, antipático e heterossexual, logo, inalcansável. Isso adicionado a vários copos de cerveja só potencializava minha atração por ele. Finalmente percebi que eu é quem estava sendo sórdido. Medíocre até. Ponderei que deveria respeitar o seu gosto por Nirvana, e que se ele achava o Pearl Jam apenas ruim, eu, a contraponto, pensava na banda favorita dele como um grande repertório de músicas incoerentes, sem sentido e de vocal débil e desafinado, semelhante a um porco esguinchando no lixo, emitidos pelos sons guturais de Kurt Cobain só para chamar a atenção.
Antes de ir embora, fizemos as pazes. Conseguimos encontrar um denominador musical comum: o Smashing Pumkins. Ambos éramos fascinados pela genialidade sutil de Billy Corgan. Com mais tecido para a manga, fomos à minha casa com o pretexto de lhe emprestar os CDs. O que, apesar de realmente ter sido a intenção inicial, nunca aconteceu de fato. Chegamos ao meu quarto e ouvimos muito Alice In Chains, Marilyn Manson e até algumas músicas do Pearl Jam, e ele admitiu que começou a gostar mais. Ainda bebemos um restinho de vinho para preencher o vácuo, mas o silêncio depois de algumas horas ficou inevitável. Não tínhamos mais assunto. Embora absolutamente envolvido, ponderei que aquela seria finalmente a hora mais sensata e necessária para dizermos “boa- noite”. Ele fez uma leitura rápida nos meus olhos traidores, que denunciaram toda a efervecência de tesão e nervosismo que estava sentindo naquele momento, e depois sorriu. Nos beijamos. E sem mais divergência musical nenhuma, transamos ao som de Ana’s Song, do Silverchair. E Miss You Love. E Black Tangled Heart. E Point of View. E todo o CD. E vários CDs. Minhas pernas tremiam em todo o momento. Para mim era inconcebível nossos corpos juntos como um amálgama de suor e saliva. Quando a explosão acabou, ele se foi. Ainda de madrugada, a pretexto de não chegar tão tarde em casa. Nos despedimos com o velho “boa-noite” de sempre e fim.
Hoje, ele estava com os cabelos mais curtos, roupas decentes, o mesmo ar de superioridade de sempre e ainda mais bonito. Enquanto eu estava com o meu velho kit “vergonha-de-mi-mesmo”, que levo todos os sábados de manhã, quando vou à feira: cabelos assanhados, uma puta cara de ressaca e sono e minha mãe dirigindo o carro.
Desta vez não chegamos a nos falar. Não quis olhar diretamente para ele. Não nos vemos desde que fui para os EUA, há mais ou menos um ano. E não nos falamos há muito mais do que isso. Percebi que apesar do nosso momento super especial, rock n’ roll e transgressor, que deveria e sempre ficou apenas em nossas mentes, não restava muito mais a dizer mesmo. Que desde antes, e agora mais do que nunca, habitávamos mundos diferentes cuja única intersecção era o discurso fático de “boa noite” nos momentos em que nos cumprimentávamos.
Mas percebi também que ele sempre será uma lembrança boa, já que graças à sorte não nos contaminamos com palavras, e, consequentemente, o rancor, arrependimento ou confusão que elas trazem. Não tivemos sequer tempo para isso. Depois de tudo, finalmente percebi que hoje realmente sinto aquilo que sempre lhe falei, pois ele me fez sentir novamente aquele furor eloquente da conquista, aquele tesão inconsequente dos 17 anos e aquela vontade de transformar nossas bocas, pés, mãos, peitos e braços num corpo só. E não apenas por isso, como muito mais, eu desejo uma ótima noite para você, Leleko.