Bem, já há algum tempo existe no mercado do amor uma teoria, e imagino que bastante complexa, de pessoas que, supostamente, se apaixonam por mais de um alguém ao mesmo tempo. E a essa nova forma multifacetária de gostar convencionou-se chamar de poliamor. No entanto, esse gostar variado também pode ser frequentemente interpretado como indecisão, gula, egoísmo e até safadeza. Seja como for, essa nova dimensão mútipla de amar é também algo muito singular. Afinal, nem todo mundo pode se gabar de padecer do poliamor.
Dividir-se entre várias pessoas, mesmo que de forma não correspondida, é uma situação, no mínimo, complicada. Administrar ciúmes, saudades, raiva, estresse, paixão e até mesmo tesão e sexo, além de todo o resto em dose dupla pode se tornar um labirinto de sentimentos e sentidos, que eventualmente entrarão em ebulição nos deixando malucos, e, nesse caso, literalmente.
Aumentar o raio de abrangência do amor, mesmo que de forma involuntária, é multiplicar não apenas todos os deleites da paixão, mas também a responsabilidade, as vicissitudes e até mesmo um pouco da psicose que habita em toda relação afetiva. No entanto, a contraponto, os sentimentos inseridos num relacionamento não estão, necessariamente, inclusos no outro. Nem sempre há correspondência entre eles. Assim, nessa loucura de emaranhados do nosso caos pós-moderno, é racionalmente possível sentir tesão e paixão por uma pessoa, e amor e ternura por outra.
Contrariando essa lógica, estamos constantemente rodeados pelas almas-gêmeas que habitam o universo mágico da novela das 8h, das comédias -românticas e atualmente dos best-sellers sobre vampiros, que reforçam em nosso imaginário a firme ideia do amor único e eterno. Aquele para todo o sempre. Aquele cujo qual e sem o qual ficamos tal e qual.
Mas será que ainda estamos preparados para dividir? Será que estamos preparados para nos contentar com apenas um? Afinal, vivendo em plena sociedade dos bens de consumo descartáveis, onde optar não é mais uma necessidade; pode-se ter tudo e em várias quantidades: 3 celulares, 2 televisões, 3 micro-systems, 2 geladeiras (eu mesmo tenho 9 dicionários), além de infinitos e mais infinitos (pode-se ter até vários infinitos) pares de roupas e sapatos, para que então barganhar justamente no amor?
Numa década onde ter mais sinaliza padrão de qualidade, em um mundo onde se é educado para possuir tudo, em um tudo cada vez mais sem limites, em plena era de extinção da palavra “escolha”, não parace absurdo algum se perguntar: três realmente é demais? Afinal, se ventiladores, geladeiras, fogões e automóveis duram no máximo dois anos, por que, então, apostar no amor eterno?
Quando eu era 3ª ano, me apaixonei perdidamente por duas pessoas. Um era o garoto que estudava na minha sala (clichê), cujo qual eu começara a me encantar já nos primeiros meses de aula. A outra, era uma menina com quem eu fazia curso de inglês (ainda mais clichê), e que eu já possuia um tipo de relacionamento. Para mim, aquilo não passava de um grande conflito nietzschiano. Dialogar com aquelas duas relações era algo desesperador. Bem, todos sabem que é totalmente ingênuo pensar que podemos amar duas pessoas de forma equânime, igualitária (sin- ou dessincronizadamente). Mas a pergunta mais difícil era: como e por quem optar? Como gerir esses dois sentimentos e tudo o que eles acarretavam? – tal como minha orientação sexual, minha forma de encarar o mundo e até o jeito de amar e fazer sexo.
Bom, o fato é que durante esse momento dual e que pode acontecer na vida de qualquer pessoa, a pergunta mais sensata, talvez, não seja “como?”, mas, sim, “por quê?”. Isto é, ao invés de “como” vim parar nesta situação ou “como” vou sair dela… quais os motivos “por que” me encontro aqui? – dividido em dois “alguéns”.
E no final, independente de termos ou não a resposta, devemos estar seguros de que a vida em algum momento se encarregará de nos direcionar para um lado, seja ele ou não aquele em que já estávamos mais inclinados para. E foi assim que fiz minha decisão. Optei pelo garoto. E não demos certo. Mas fico feliz de que ele, mesmo involuntariamente, me abriu os olhos de quem eu realmente era e qual tipo minha predileção afetiva consistia de verdade. Foi assim, então, como o próprio Nietzsche falou, que consegui sair dessa situação, pois “quem já tem o ‘porquê’ respondido encontra o ‘como’ muito mais facilitadamente”.