Essa semana, confesso que fiquei bastante chocado com um diálogo que tive, antes da novela, com a minha mãe. “Se a terapia não fizer com que você volte a ser hétero, não vou mais pagar” (sic), disse ela, de forma totalmente branda.
Antes de descorrer sobre o absurdo, fica uma nota. A sigla sic, tem origem do latim, e é muito usada nos textos jornalísticos para relatar com precisão o que a fonte falou. O sic só é utilizado, no entanto, quando há erro gramatical ou semântico na frase, e tal erro é tão importante para o entedimento da notícia, que o jornalista, ao invés de relevá-lo, transcreve-o exatamente como foi dito, utilizando-se do sic para que o leitor tenha a noção que, além de não ser um erro de redação de texto, tais palavras foram exatamente as proferidas pelo entrevistado, ou o mais perto disso possível. O sic, neste caso, não foi empregado para identificar um erro gramatical, ou seja, no campo da construção da frase, ou semântico, no campo de significação da mesma. Ele serviu para identificar um erro ideológico. O simples conceito de que minha mãe, a famigeradora da notícia, assim como milhares de pessoas brancas, classe média e heterossexuais (achou preconceituosos os adjetivos?, eu também achei o meu), realmente achava que eu poderia, como ela mesma disse, “voltar a ser hétero” (sic, novamente).
Não vamos nos deter sequer na discussão de: “nascer ou não nascer gay, eis a questão”. Isso deixo para uma próxima oportunidade. Mas ao fato de que em meio ao caos pós-moderno, pessoas ainda concebem que alguém pode heterossexualizar-se. Parêntesis: nos EUA, onde, aparentemente, tudo é possível, principalmente as coisas mais esdrúxulas e bizarras, existe um termo para denominar as pessoas que “deixaram de ser homossexuais” – o yestergay. Algo do tipo: era veado* ontem, hoje não sou mais. Não vale nem a pena comentar, pois acho isso tudo uma frescura, e até o próprio nome para designar o agora, então, hétero é a maior viadagem. Pra mim, isso tudo é só coisa de veado.
Mas voltando aos héteros, não puder evitar, exceto, chocar-me, apesar de cruas, não com as palavras, mas, sim, com o conceito que minha mãe deixou explícito. Claro, admito, que estou ciente de toda aquela baboseira de conflito de gerações, blá blá blá. Mas o fato é que essa é uma ideia, além egoísta, extremamente capitalista, de que uma terapia resolveria “o problema”. Dinheiro + tratamento = cura. E ainda há a ideia implícita diante da insatisfação do serviço: tratamento + ausência de resultados = suspensão do pagamento. Sinceramente, não me surpreenderia muito se minha mãe se sentisse lesada o suficiente a ponto levar o caso pro Procon. “Deu defeito no serviço, quero meu dinheiro de volta, idenização, outro tratamento, outro remédio; uma cura”.
- Desculpe, minha senhora, mas, infelizmente, contra essa “doença” não existe profilaxia.
Não pude evitar, exceto imaginar. E se houvesse uma pílula? Uma pílula vermelha, branca, amarela etc. Melhor, azul. Azul, que é a cor do céu, do mar, do oceano e até do time do Cruzeiro. Enfim, azul; a cor do planeta. Uma pílula azul, do mesmo azul que decora o quartinho e o berço do bebê, simbolizando o recém nascimento de um menino. Azul, que é cor de macho. O mesmo azul que está ligado a todos esses ítens que, ironicamente, além de azuis, também são substantivos masculinos. São macho. Enfim, vamos imaginar que uma pílula azul, azul de macho, pudesse transformar um gay em hétero. Será que algumas mães não ficariam tentadas e a comprariam? Talvez pedissem com jeitinho, talvez colocassem-na, às surdinas, no copo matinal de vitamina, antes de você ir para a escola. Caso já fosse adulto, talvez preparassem um chá ou café para o filhinho querido. Se morrassem sozinhos, talvez o fizessem uma visita inesperada com um “bolinho”.
Mas, afinal, por que a heterosexualidade está tão implícita em tudo que vivemos? De repente tudo se tomou de azul. Agora mais do que antes percebo o quanto estamos presos a essa cor, o quanto nós, gays, estamos presos à heterossexualidade. O meu antigo carro é azul, o banco que eu tenho conta corrente é azul, e, desculpe a redundância, mas até o azuleijo do banheiro da minha casa é azul. As cuecas que minha avó me dá todo final de ano, como presente de natal, são azuis. O fardamento da marinha do meu pai era azul. Até o ônibus que eu pego para voltar pra casa, Jordão Baixo, é azul. Como se não bastasse, segundo Djavan, em uma de suas letras, até o amor é azul. E advinha o nome da música? Ah, basta!
Parece absurdo, não é? Sinceramente, acho que mais absurdo não é imaginar tal pílula ou o azul tão implícito no nosso dia-a-dia. Quem sabe se ela já não existe? Absurdo, na verdade, é o fato de que várias mães, pais ou parentes fariam de um tudo para ver seus filhos héteros “novamente”, que aqui é empregado por eles, não pelo fato de que os gays de hoje não tenham sido também gays no passado ou até desde que nasceram, mas porque sempre foram pensados pelos seus pais, inquestionavelmente, como heterossexuais, como azuis, seguindo, assim, o padrão de “normalidade social”.